Moisés Mendes: o tradicionalismo e os novos farrapos

Reproduzo abaixo a coluna de Moisés Mendes publicada domingo no jornal Zero Hora. Recomendo com ênfase a leitura.


Em que momento os CTGs se apropriaram do tradicionalismo como manifestação do que existe de mais reacionário na representação do gaúcho? Acho que foi mais ou menos na época em que o Pastel perdeu a lente de contato num baile do CTG Vaqueanos da Fronteira, no Alegrete.

Os bailes nos Vaqueanos e no CTG Farroupilha nem sempre eram a caráter. Frequentava-se CTG à paisana, de calça Lee e camisa de ban-lon. Dançava-se ao som do 3ª Dimensão, com Fevers, Beach Boys, Roberto Carlos, Beatles, Renato e seus Blue Caps. Isso na primeira metade dos anos 70, quando o tradicionalismo não tinha os dogmas de hoje.

Charge de Iotti, Zero Hora
E foi então que, perto da copa dos Vaqueanos, o CTG lotado, o Pastel gritou que havia perdido a lente. O grupo passou a procurar a lente no chão de tábua, enquanto as pessoas continuavam indo e vindo. Como encontrar uma lente de contato naquele entrevero?

De repente, depois de uns cinco minutos de procura, Pastel ergueu-se do chão com a lente na ponta do dedo. Erguemos os copos com cuba libre, comemoramos, e o Pastel deu uma lambida rápida na lente e pronto: a lente estava de volta ao olho. E voltamos para a pista.

Ali, mais ou menos naquela época, os CTGs foram cooptados pela ditadura. Isso já foi contado e recontado aqui mesmo na Zero. A consequência está na bela matéria da Kamila Almeida sobre o desencanto dos jovens com o tradicionalismo.

Kamila fez um texto preciso e sensível, em que os jovens falam quase em voz baixa, respeitosamente, contra o excesso de conservadorismo dos CTGs. E o que mais aparece é a discriminação aos gays.

Não me lembro, no meu tempo dos bailes à paisana (nunca me pilchei) nos CTGs do Alegrete, de uma rejeição tão virulenta aos gays. E isso lá nos anos 70, quando a Fátima De Ré jogava rosas para os guris que faziam cover dos Beatles.

O mundo involuiu, em alguns redutos, para o reacionarismo. Os CTGs militarizaram a tradição.

E o que acontecerá com a reportagem da Kamila entre os chefes dos CTGs? Quase nada. O tradicionalismo se faz de surdo, porque o não-debate é o que interessa. O historiador Tau Golin lida com o assunto há anos, mas não encontra um interlocutor à altura da discussão que propõe.

Os CTGs podem ter chegado ao esgotamento, como expressão de gauchismo, pela capacidade de serem mais conservadores do que há 40 anos. Quando ainda era possível encontrar uma lente de contato no chão, nos entreveros de um baile nos Vaqueanos.

***

Há um paradoxo nesse caso do CTG Sentinelas do Planalto. Ao aceitar o casamento coletivo com casais gays, o CTG se rebelou contra o poder do MTG e do que o tradicionalismo tem de mais conservador.

Se o 20 de Setembro está atrás de quem, pela rebeldia, representa hoje os farrapos, tem à mão o CTG de Livramento. Ou esse tipo de novos farrapos não interessa ao MTG, que seria hoje a representação do poder absoluto do Império?

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