Localizando Raul Boeira na música brasileira


Não se engane com a linda capa do disco. O frio não é a única senda por onde trilha a música popular gaúcha. Mesmo depois do paradigmático manifesto estético de Vitor Ramil, teve artista que seguiu por bandas mais quentes. Raul Boeira é um desses cancionistas do Rio Grande do Sul, ao lado de nomes como Otávio Segala e Vinícius Todeschini. Aclimata sua música muito mais na brisa do litoral carioca e alhures do que nas geadas do inverno sulino. Cada qual se ambienta onde mais se identifica.

Este assunto faz-se presente no segundo disco da carreira do compositor, o primeiro ao lado da letrista Márcia Barbosa. Em “Cada qual com seu espanto”, que terá lançamento neste inverno de 2016, o porto-alegrense segue investindo na música brasileira de forma eclética. As canções filiam-se mais à tradição da MPB do que ao regionalismo, embora inclua-se uma paródia épica da milonga. E embora as letras falem muito do espaço em que transita cotidianamente: Passo Fundo, cidade do Norte gaúcho, onde está radicado há décadas.

Por exemplo, na canção “A cidade sumiu”, o compositor reclama do excesso de propaganda que desconfigura os prédios históricos e tapa a paisagem em suas caminhadas corriqueiras. O clima de samba-exaltação da introdução é quebrado pela letra irônica: “olhei pra cidade e não vi nenhuma cidade ali”. Talvez resida neste verso certo localismo, carregado de afetividade, mas a visão é certamente cosmopolita. Uma bela síntese urbana contemporânea.

Leia aqui sobre o primeiro disco: Volume I.

No frevo “Aos que chegam”, Raul saúda a chegada dos imigrantes, principalmente africanos, que foram trabalhar nos últimos anos no interior do estado. No verso “pela Brasil passam muitos países”, brinca com o nome da histórica avenida que cruza a cidade. Também evoca assim o imaginário da "terra de passagem" (Passo Fundo consolidou-se como centro urbano a partir do caminho de tropeiros; posteriormente, com a ferrovia que ligava o Norte do estado a São Paulo).

Em outro “localismo”, a bossa “Meu rio” lamenta ao lembrar do tempo em que havia peixe no Rio Passo Fundo (outra referência geográfica), que corta e batiza a cidade em que vive. Vale observar que as letras, enquanto localizam no mapa a paisagem, falam sobre questões comuns à maior parte do mundo. E até aqui já contabilizamos samba, frevo e bossa, na conta da MPB.

Mas a polêmica, prenunciada na abertura deste texto, está nas músicas “Complexo de épico II”, em que relativiza o bairrismo e a exaltação da epopeia farroupilha, e “Funk a contrapelo”, em que refuta a Estética do Frio. Na primeira, canta: “vejo o pago cansado de ter que engolir tanto triunfo”. Para esta faixa, talvez tenha ocorrido o maior êxito nos arranjos elaborados por Dudu Trentin para o disco. A orquestração de batalha cinematográfica cria um nonsense que caiu muito bem para a letra, não por obviedade. Esta milonga enquadra-se na diversidade de climas e intenções dos arranjos, tecnicamente muito bem construídos. Acontece que o diretor musical foi buscar grandes instrumentistas da música brasileira para gravar, garantindo a excelência na reprodução de standards da MPB. Mas para além disto, a faixa "épica" ganhou uma roupagem original que elevou a canção a uma versão definitiva.

Já no funk, protesto de desfiliação à Estética do Frio, canta: “tanto Mi Menor não tem razão de ser”. Em sua visão, a melancolia da canção popular gaúcha remete indelevelmente à tristeza. Vitor Ramil poderia contrapor recuperando sua intenção de encontrar a alegria na melancolia, e de não oferecer seu manifesto como definição última e castrante à música regional. De qualquer forma, Raul marca posição e nos ajuda a perceber a diversidade na música produzida no estado.

O disco também é permeado pela parceria com Márcia Barbosa, professora-pesquisadora de Letras na Universidade de Passo Fundo e esposa do compositor. Em meio a canções de bastante ironia na crônica do nosso tempo, estilo próprio de Raul Boeira, a letrista soma requinte formal e lirismo, ora cândido com as coisas cotidianas, ora existencial. Em seus versos, a dimensão de lugar recolhe-se ao bairro e adentra o lar: “dentro da casca, num palpitar/ o que há de estranho no familiar/ vai surgir miragem, prometer passagem até lá”. Em outra canção ("Ventos"), num divagar valseado:

(...)
vento portátil é o leque na mão
vento batendo o portão
vento sacana, me dá meu chapéu
vento aqui no meu pastel

vento,
areja o parlamento
se me desoriento
rosa dos ventos, onde ir?

vento,
não vês o quanto tento
erguer-te um monumento
numa canção te traduzir?

Pode-se entender que o álbum “Cada qual com seu espanto” propõe no título uma distinção de originalidade e uma permissão para que terceiros liberem-se para a sensibilidade e a criação. Acredito que está nesta compreensão artística a celebração da diversidade. Na penúltima faixa, assinada pela dupla, “Povaréu”, com acordes caipiras e com axé, a síntese: “Bem de perto, gente é gentes, no plural”.

Nesta lógica da diversidade, rotular como MPB este trabalho só limitaria-o. Sentindo bem de perto, a música de Raul Boeira e Márcia Barbosa pode passar esteticamente por quaisquer referências. Mas nunca deixa de falar sobre o lugar mais íntimo dos artistas e das suas visões sobre o mundo. Seja sobre o caminho entre a casa e a praça do município, ou sobre a eternidade poética brincando com a finitude universal humana.

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Enquanto não estão disponíveis as novas faixas (o disco chega ainda neste mês de junho), podemos ouvir interpretações de outros músicos, gravadas na Europa e no Rio de Janeiro, para canções do primeiro álbum de Raul Boeira.



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