Luiz Sérgio Metz, o Jacaré

Luiz Sérgio Metz nasceu em Santo Ângelo (RS) no dia 3 de junho de 1952. Criou-se na cidade missioneira, estudou jornalismo em Santa Maria e viveu sua carreira profissional em Porto Alegre. Foi escritor, jornalista e letrista do grupo Tambo do Bando. Jacaré, como era conhecido, morreu de câncer em 20 de junho de 1996. Para além da necrologia, vamos aqui celebrar um nome que marcou a cultura do Rio Grande do Sul.

Seu colega de trabalho na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, onde trabalhou até os últimos dias de vida, Luís Augusto Fischer, define-o:

“Ele próprio era uma síntese. Filho de pai descendente de colonos alemães e de mãe de colonos italianos, se criou nos arrabaldes de Santo Ângelo, coração das Missões, viveu como guri entre a cidade e o campo, foi cavalariano no Exército, cruzou com índios e castelhanos, conheceu o Sul profundo da vida estancieira, cursou a Universidade, foi jornalista, pai de filhos, pós-graduou-se em literatura, amou, viveu rápido, escreveu, fez amigos para toda a eternidade.” (Zero Hora, 29 de junho de 1996)

Com os amigos Vinícius Brum, Aparício Silva Rillo, Pedro Luiz Osório e Nelson Ribas, no festival da Barranca, em São Borja.
Luiz Sérgio Metz era leitor de Mallarmé, Eliot, Jorge Luis Borges, Aparício Silva Rillo e do realismo mágico dos latino-americanos. Dentro de seu universo musical, estão nomes como Jorge Cafrune e Bob Dylan. O trabalho musical do poeta desenvolveu-se basicamente com o grupo Tambo do Bando e o cantor nativista Luiz Carlos Borges, chegando a ser um dos mais reputados letristas do circuito nativista, com prêmios em vários festivais do Rio Grande do Sul.

Letras
Em seu último ano de vida, foi colaborador da coluna Regionalismo do caderno Cultura de Zero Hora, ao lado de Barbosa Lessa e Carlos Reverbel. Trabalhou na Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre e lá deixou incompleto um livro sobre a história da Usina do Gasômetro (publicado postumamente em co-autoria com Fischer).

Sérgio Jacaré lançou em vida três livros. O compêndio de contos O Primeiro e o Segundo Homem (Martins Livreiro, 1981), a biografia de Aureliano de Figueiredo Pinto (Tchê, 1986) e o romance Assim na Terra (Artes & Ofícios, 1995). Esse último, segundo Luís Augusto Fischer, é “uma das 10 mais importantes obras de ficção do Rio Grande do Sul de todos os tempos e certamente uma das 10 melhores coisas escritas no país na última década” (Zero Hora, 29 de junho de 1996).

Também postumamente, teve publicado o volume “Terra adentro” (Arquipélago, 2006), relato de uma viagem a cavalo pelo interior do estado, ao lado dos amigos Pedro Luiz Osório e Tau Golin. Teria sido a primeira empreitada de montaria com fins culturais gauchescos.

Tambo do Bando: Marcelo Lehmann, Texo Cabral, Beto Bollo, Vinícius Brum, Jacaré e Leandro Cachoeira.

Certa vez, Jacaré explicou sua vocação para a polêmica e acabou elucidando seu perfil como ninguém mais poderia fazê-lo:

“Por natureza, por essência, por definição e postura o artista é um cidadão incomum e iluminante. Deriva de sua agudíssima sensibilidade esse posicionamento diferenciado. O artista é, na prática, difícil de reunir, impossível de redomonear, instável de conviver; enxerga os absurdos antes dos demais, sente as transformações sociais primeiro e privilegiadamente e isso, não raro, o coloca em permanente estado de alarme e angústia. Expressa-se de forma precisa sobre seu tempo e, por dialogar através de imagens, símbolos e metáforas – que são sínteses transformadas e transformadoras da realidade, às vezes é chamado de ‘absurdo’, ‘hermético’ e, ainda pejorativamente, de ‘visionário’, ‘complexo’, ‘obscuro’.” (METZ, Noroeste, 16 de novembro de 2001)


Tambo do Bando
O Tambo do Bando teve em sua estética musical a forma de pensar o Rio Grande do Sul e o mundo que Sérgio Jacaré escrevia nas letras, contos e livros. Abordava temas como dilemas da existência e reforma agrária, retratando a região fora dos moldes tradicionais.

Em "Um pombo larga o pago", faixa presente em "O pago revisitado", disco de Santiago Neto (1997), o poeta sul-rio-grandense citou Tolstoi, sintetizando a estética representada pelo grupo durante dez anos:

"Um pombo larga o pago pra que ele volte vago/ Ambos alados, lado a lado, separados/ Se Tolstoi ao pensar nisso estava referindo uma biboca tal/ Certamente estava a frente, bem a frente de algo maternal/ Ao passar por linhas carreteiras a seguinte solução final:/ ‘Canta tua aldeia e serás universal, que a querência, por externa, nunca sai do coração" (METZ; BRUM, 1997, LP).

A dinamização das trocas culturais na pós-modernidade provocou reações diversas, como a retração em torno de tradições ou a hibridização das culturas. O Tambo do Bando enquadrava-se dentro de uma nova tendência na cultura mundial, a reação criativa latino-americana, frente ao mercado de bens culturais e às tradições.

Jacaré talvez hoje esteja “fumando sobre o mapa”, parafraseando-o com uma de suas finas metáforas. Assiste de outra dimensão a fase terminal da neurose tradicionalista que tanto diagnosticou com ironia e para a qual receitou a arte adequada, indicada para atravessarmos a contemporaneidade vivendo uma cultura sul-rio-grandense híbrida, construída harmonicamente entre os lugares da identidade e da alteridade.

------------

Trechos adaptados do meu Trabalho de Conclusão de Curso na graduação em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, sob orientação do Dr. Tau Golin: “O tambo que rompeu o bando: a representação de uma nova estética musical regional na comunicação do Rio Grande do Sul” (Universidade de Passo Fundo - UPF, 2002).

Crédito das Fotos: Emilio Pedroso/ZH

Leia aqui um texto de Marcos Rolim sobre Jacaré.

Leia aqui o artigo “A maldição da memória”, de Janaína de Azevedo Baladão, sobre o livro Assim na Terra.

Ouça aqui a música “1996“, de Pedro Metz, em homenagem ao pai. Música integrante do disco “Como num filme sem um fim“, da banda Pública.

Postagens mais visitadas