De vulgos e chulos

*por Tau Golin, publicado originalmente no Facebook

Nesta terça, ouvi o “debate” sobre se valeu a pena a Revolução Farroupilha, em uma grande emissora da capital. Participaram dois historiadores e um tradicionalista. O debate prometia, mas o radialista, que falava mais que todo mundo, não permitiu que o assunto fluísse. Mesmo assim, alguns esclarecimentos foram importantes, como o que as facções farrapas eram minoria, que a infantaria negra foi traída pelos chefes, que inúmeros negros fugiram para o Uruguai, Entre-Rios e Corrientes, além de outros tantos terem sido “escondidos” pelos seus senhores farrapos, permanecendo escravos no futuro. E como epílogo desta maldição sobre os negros: aqueles que permaneceram recrutados foram entregues pelos farroupilhas ao barão de Caxias para permanecer em galés, escravos do Império, no Rio de Janeiro.

Tau Golin na época em que percorreu o interior à cavalo
Além do debate “controlado”, o radialista reafirmava seguidamente que a sua emissora continuaria “comemorando o 20 de setembro”. Quando temos comunicadores que comemoram e não criam canais de esclarecimento, de saber e compreensão histórica, quando os eventos se transformam em produto midiático para fazer média com a população reificada na ignorância, especular com sentimentos e promover o orgulho vazio, como pastiche, estamos diante de indicadores da decadência de uma emissora. Trata o público como pastoreio do seu interesse comercial.

Na história da comunicação, todavia, o preço pago é altíssimo. Perde a credibilidade; aparta-se das esferas cidadãs. Abdica da ética e do sentido deontológico da comunicação. Troca o jornalismo pelo circo. Não é por nada que todos os assuntos abordados pelo radialista transformam-se em vulgata, vão aos pícaros do senso comum, da obviedade primária, quando não mergulham nos preconceitos mais chulos (termo apropriado para setembro).

Leia outros textos de Tau Golin:
...lembrando o Manifesto Contra o Tradicionalismo
Sepé Tiaraju não esteve na vanguarda da rebeldia
Identidade (by Cabocla Kaingang)

Saiba mais sobre a cavalgada pelo interior, no livro Terra Adentro (aqui).

Leia abaixo a entrevista que fiz em 2007 com o historiador, para a revista Aplauso:



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