De que importa quem foi Salomé

*texto publicado no jornal O Nacional, em 20 de setembro de 2013

Na ocasião do falecimento do humorista Chico Anysio, no ano passado, o então vereador Roque Letti subiu à tribuna para homenagear o criador da personagem Salomé. De acordo com o edil, este seria o maior responsável, depois de Teixeirinha, por levar o nome de Passo Fundo além trevo. Em seu pronunciamento perguntou aos presentes, inclusos nobres colegas, se sabiam quem era Salomé na vida real. Ficou sem resposta.

Na versão do humorista, Salomé Maria da Anunciação era uma senhora gaúcha, natural de Passo Fundo, que foi professora do então presidente da República, João Baptista Figueiredo. Toda semana, ela conversava com ele por telefone com grande intimidade e, como uma madrinha que se dirigia ao afilhado, não se acanhava em fazer exigências e reclamações.

O quadro era veiculado toda semana em rede nacional de televisão, pela Globo, encerrando o programa Chico City, entre 1979 e 1985. Ao iniciar cada ligação telefônica, a personagem se apresentava com o jargão: “Alô, João Batista? É Salomé de Passo Fundo”.

A riqueza da personagem estava no fato de que se vivia sob ditadura, e o quadro tinha um caráter crítico acentuado. Inclusive em 1980, Salomé passou a transmitir ao presidente da República recados e pedidos que os telespectadores enviavam por carta para a produção do programa. No final, emitia outro jargão:  “Barbaridade, tchê! Eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”.

Este discurso de Salomé no final revela uma de suas características, a do sotaque gaúcho. Também incorpora certa bravura e orgulho quixotescos, que podem ser entendidos como típicos do estereótipo gauchesco. Por outro lado, poder-se-ia interpretar a impertinência valente da senhora como representante da resistência que lutou durante a ditadura, mas não tinha visibilidade em horário nobre de televisão. E Passo Fundo, associada a este arcabouço simbólico, poderia ter escolhido qualquer um destes ideais para tomar para si.

Percebe-se que o viés gauchesco teve predileção até hoje em nosso imaginário. Creio que a manifestação do vereador Roque Letti quando da morte de Chico Anysio não foi salutar à resistência.

Mas o que sabemos sobre nossa história? Passo Fundo não foi terra de gaúchos, mas de índios, caboclos, paulistas, imigrantes, etc. E Salomé teria sido inspirada na dona de um prostíbulo, a famosa Tia Carula, conforme sugestão do parlamentar? Qual a importância do nome da cidade ser levado às telas de todo o país apenas como jargão gauchesco, esvaziado de sentido?

Se a sugestão estiver correta, de que Salomé era Tia Carula, jogaríamos luzes em  parte da história da cidade que sempre esteve à margem. A prostituição movimenta bastante a economia e a cultura de Passo Fundo, pelo menos, desde que a ferrovia passava próxima ao Cassino da Maroca, no início do século vinte.

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O parecer-ser gaúcho foi ganhando importância a partir dos anos 1950, com a criação de CTGs por aqui, copiando o que ocorria na capital do estado. Nos anos 1970 veio o filme Gaúcho de Passo Fundo, de Teixeirinha. Em 1980, o poder público municipal aprovou um projeto megalomaníaco chamado “Passo Fundo, Tchê”, com intuito de transformar turisticamente este centro urbano em uma Las Vegas campeira. Bom observar também que nesta época explodiu o movimento Nativista, inundando a publicidade de jargões e bombachas.

Talvez este histórico tenha inspirado Chico Anysio, como humorista, a reproduzir um estereótipo reconhecido localmente e o massificar Brasil afora. E o que a cidade ganhou com isso? Sermos reconhecidos como harém de passagem? Um ponto de resistência política? Por que afinal de contas importa que o Brasil reconheça Passo Fundo no mapa?

Em tempo: de acordo com a Wikipédia e o Novo Testamento, Salomé, neta de Herodes - O Grande, é apontada como responsável pela execução de João Batista.

Saiba mais sobre o Cassino da Maroca na reportagem de Fernanda da Costa e Diogo Zanatta. Clique aqui.

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