No altar da música gaúcha, Alabê Ôni

Sempre que tenho a oportunidade, engajo-me na desmistificação do gauchismo. É um prazer incomodar a idolatria ortodoxa do tipo branco montado a cavalo. Por isso minha excitação com o surgimento do grupo Alabê Ôni, que no último ano elevou a negritude sul-rio-grandense à cena cultural do país, mostrando nosso estado de forma mais heterodoxa.

Considerando que desde os anos 1950 só pensávamos em levar danças de CTG para nos auto-representarmos além fronteiras, este foi um feito paradigmático. Em um ano de gira, o Alabê Ôni apresentou a raiz negra da música gaúcha em mais de 100 cidades brasileiras, em teatros, centros culturais, escolas e paróquias. O genuíno tambor de sopapo viajou pelo projeto Sonora Brasil do SESC, ao ritmo de quicumbis, maçambiques e candombes.

Na última sexta-feira, houve a festa final, em Porto Alegre. Acompanhei este momento carregado de emoção e realização. Foi um show intenso, totalmente acústico, temperado entre o sagrado e o profano. Os batuques e cânticos levaram a platéia tanto às lágrimas quanto à dança.

Os músicos-pesquisadores Richard Serraria, Kako Xavier, Pingo Borel e Mimmo Ferreira prepararam um repertório que propunha honrar a tradição tamboreira do estado. Reverenciaram o mestre Giba-Giba, que veio a falecer no meio da turnê, e o mestre Baptista, luthier de Pelotas, que confeccionou o tambor de sopapo que viajou com eles. O instrumento, sempre no centro do palco era cultuado, como se fosse um altar ou uma entidade. Ali estava a representação da religiosidade, catalisadora da hibridização cultural afro-brasileira.

O show celebrou também a história, a arte e o humano. Cada um dos integrantes do Alabê Ôni era responsável por contar algumas histórias. Kako Xavier destacou-se nesta empreitada, obtendo interação entusiasmada da platéia, ao descrever os rituais do maçambique do litoral norte. Teve ainda o momento do candombe, ritmo afro-uruguaio, registrado também na Cidade Baixa em Porto Alegre. E os ensaios de promessa e quicumbis. Um dos pontos altos do espetáculo foi a performance de Pingo Borel, como orixá. O artista dançou vestido de palha e foi ovacionado.

Importante observar que os artistas ali no palco não eram herdeiros diretos de manifestações culturais dos escravos do período colonial. Isto porque estas tradições não foram passadas de pai pra filho aqui no estado. Tampouco foram as práticas que hoje identificamos como tradicionalistas, inventadas nos anos 1940 e 1950, e que celebramos todo 20 de setembro como se fosse algo centenário. O resultado tem sido a falta de visibilidade para a negritude nos palcos gaúchos, apesar de iniciativas importantes de resgate, como a de Ivo Ladislau, a dos Cantadores do Litoral e a do festival Cabobu em 2000. Em termos de identidade regional, o gauchismo não deixou muita brecha para repartir o bolo.

Mas o Alabê Ôni empolgou. Faz acreditar que, depois de décadas voltados somente para a influência européia, estamos valorizando mais nossa matriz africana. Ao longo dos anos de hegemonia gauchesca, a participação do negro na composição das origens culturais do estado teria ficado mais restrita ao carnaval. Agora temos um grupo daqui que rodou o país, tocando ritmos regionais no tambor de sopapo. Gravaram DVD e estão concorrendo ao prêmio Açorianos de Música. Será um novo patamar de consagração da música negra do Rio Grande do Sul? Espero que sim.

Acesse aqui o site do Alabê ôni.

Acesse aqui o site do Sonora Brasil.

Assista aqui o filme O Grande Tambor.

Acesse aqui o site dos Cantadores do Litoral.

Mimmo Ferreira, Kako Xavier, Pingo Borel e Richard Serraria, em meio ao público que foi ao palco pra dançar.

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