Buscas analógicas e digitais sobre a performance de Vitor Ramil


Há uns 10 anos fotografei o compositor Vitor Ramil no palco do Theatro São Pedro. Queimei meia dúzia de poses que sobraram num filme que já estava na máquina. Acabei colecionando uma foto meio borrada, a única que não ficou totalmente escura ou ilegível, valendo a pena ampliá-la. A cena congelada mostrava o artista aparentemente estático, dedilhando as cordas de aço e  com olhar perdido mirando a linha do horizonte. Talvez seu retrato mais fiel.

Agora, no último domingo, veio mais uma oportunidade. O cantautor apresentava show do disco Foi no Mês que Vem, em que revisita seu repertório de mais de 30 anos, com convidados em cada faixa. Fui de equipamento digital em punho (o risco desta vez residira só na pouca habilidade do fotógrafo). O resultado foi centenas de frames gravados, ao lado de parceiros que se revezaram, sob diferentes luzes. Mas sua expressão contida no palco continuava não extrapolando a sintonia perfeccionista entre cantor e instrumento, bem como a sobriedade no vestir.

Ora, caberia esperar eloquência gestual de Vitor Ramil? Em sua juventude até experimentou diferentes personagens, como o Barão de Satolep. No entanto, na maturidade, sua qualidade não está justamente concentrada na harmonia produzida pelos dedos juntos ao violão e na voz suave, colocada com esmero? E quanto às fotos, pretendemos reproduzir apenas aquilo que salta aos olhos?

Carlos Moscardini
Se não recorrermos à nossa sensibilidade, a milonga será monótona. A melancolia será um tédio. Se olharmos com desatenção, esta presença quase imóvel de Vitor Ramil no palco ratificará o preconceito.

Quero dizer que para pegar carona no universo planificado, rigoroso e leve das ramilongas é preciso deixar-se levar por seus acordes abertos de notas contínuas, insistentes na harmonia. Tem que se ater verso a verso, como os de “Loucos de Cara”, entendendo seu contexto, para poder se emocionar quando o cantor entoa “Garibaldi delira, puxa no campo um provável navio, grita no mar farroupilha, fica na tua”. Assim vamos longe...

Esta canção garantiu pra mim o clímax do show de domingo. Não só por predileção prévia da música, mas pela forma como ela foi apresentada, acompanhada do vídeo de uma cegonha. A imagem, captada por sua filha, a artista visual Isabel Ramil, observava a ave pousada, com as patas esticadas. Sua cabeça ia para trás, para os lados. Suas asas eventualmente se abriam em arco, ameaçando vôo. Mas o pássaro ficou ali a música inteira, hipnotizando-nos, insinuando um díptico com o cantautor. Era impossível conter a expectativa de voar quando entoava o refrão: “Vem, nada nos prende, ombro no ombro, vamos sumir”.

Objetividade tipo kodak

Aproveito o post sobre o show para continuar tentando localizar este artista singular na música brasileira. Para tanto, vou começar rimando com o poeta Ferreira Gullar, que usa uma expressão que de certa forma inspirou o início deste artigo: “objetividade tipo kodak”. Nela, o lirismo das paisagens e as cores locais seriam supervalorizadas, em detrimento das contradições e complexidades não tão aparentes. Coisa exaltada e logo superada pelo modernismo. Foi na época de nacionalismo estético ululante dos festivais de MPB (com suas versões locais), que o poeta constatou a superação do ufanismo e desta objetividade tipo kodak. Ali, a música pretendeu não mais idealizar o país, mas revelá-lo tal ele é.

Esta superação se faz necessária para que uma cultura postule-se universal. Atentando à complexidade e ao drama real do país, o artista chega à particularidade que o faz único e capaz de dialogar com o mundo. Ferreira Gullar escreveu que “o universal só existe em cada particular e o particular só imperfeitamente se insere no universal”. A partir daqui poderíamos adicionar mais uma parte à máxima de Tolstoi, que vem sendo reproduzida vulgarmente no Rio Grande do Sul: “Canta tua aldeia e serás universal”. Acrescentaríamos: “se teu canto não for clichê”.

Vitor Ramil, quando descreve o pampa, ou a cidade de Porto Alegre, imprime sua particularidade. Não são descrições cartográficas, ou canonizadas, que se reconheceria numa brochura turística. A universalidade concreta da obra do pelotense acontece porque tem por referência o mundo real, e o presente. Sua condição de artista frente ao público com sua personalidade contida e reflexiva, contrasta com a arte festiva que domina as manifestações populares e a indústria cultural. Suas ramilongas exigem, de nós espectadores, ensimesmarmos e pararmos um pouco na rotina ansiosa, em que estímulos e respostas são como ligações elétricas imediatas. Proporcionam que não entremos em curto-circuito, com fruições mais demoradas, que incendeiam sentidos e emoções profundamente.

Ao contrário do que propõe Vitor, o que mais ocorre quando o gauchismo se quer comunicar universal, é aproximar-se do cowboy norte-americano, valente, rude. Paradoxalmente, a maioria quer parecer gaúcho com performances que deixam de lado o que se teria de particular. Quando o gaúcho modela-se para aparecer na televisão ou tocar um baile, cuida muito bem da pilcha, mas não leva pro palco a hora reflexiva e intimista do mate. Acaba caindo na vala comum, quando a universalização acaba sendo uma legitimação da cultura da mídia, com gente muito bem fantasiada.

Jorge Luis Borges, de quem Vitor musicou alguns poemas, ajuda a entender esta relação, regionalizando-a também. O escritor criticava o culto das cores locais na literatura argentina, principalmente dos poetas gauchescos. Para ele, um escritor continuaria sendo argentino mesmo que se despreocupasse em incluir nos textos características evidentemente nativas. A particularidade cultural de onde o artista vive seria impressa mesmo que sutilmente. Por exemplo, na pilcha estaria o óbvio, nos costumes a sutileza. Um argentino tentando fazer-se passar por argentino seria uma afetação, uma caricatura de si mesmo. Mais caricato ainda seriam artistas citadinos querendo fazer crer que estão no campo.

Talvez a crítica de Gullar e Borges também sirva para colocarmos em xeque a obra de Vitor Ramil. No entanto, acredito que não há esforço no caso dele de parecer-ser gaúcho. Sim, ele elegeu a milonga como gênero e o pampa como paisagem. Isso porque estes elementos constituem seu estar no mundo, como indivíduo melancólico e do seu tempo. É preciso agora atender ao chamado que o artista faz no filme A Linha Fria do Horizonte, de cada um encontrar a alegria existente na melancolia.

Carlos Moscardini, Ian Ramil, Vitor Ramil e Marcos Suzano

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