Arthur de Faria e Omar Giammarco em: Uma noite sem radiodifusão

Música Menor é o nome do projeto que une o gaúcho Arthur de Faria e o argentino Omar Giammarco. Neste domingo eles apresentaram o repertório que estão gravando em disco. O show foi sediado no Café Fon Fon, casa dedicada ao jazz e essencialmente à música “feita pra ser ouvida”. Na semana passada havia tocado ali o uruguaio Sebastián Jantos. Agora, sobre o duo, vamos a uma descrição “mais fidedigna” do ocorrido, incluindo os pormenores:


Ouviram dizer que uma canção seria executada ao vivo pela primeira e única vez. Estava tudo cronometrado. A deixa viria no desmonte do Brique da Redenção, no momento exato em que o tilintar das hastes dos estandes ralentasse num intervalo superior a 1 minuto. Quando, entre um estalo metálico e outro, houvesse silêncio tamanho, os convidados afluiriam à exclusividade de um pequeno recinto.

Um curioso chegou pouco adiantado, denotando sua falta de familiaridade com a senha. Já anoitecera o domingo quente em Porto Alegre, pleno inverno. Volteou uma quadra enquanto a desmontagem avançava pros compassos finais. Quando topou novamente com aquela janela arcada, ouviu na passagem de som: “Me voy com los poetas”. Entrou, no ritmo. Deu de cara com os anfitriões: um saxofonista careca, uma pianista ruiva, e uma garçonete cronista. Cada um teve seu turno para informar de forma gentil que não havia mais lugares disponíveis. Ficou ressabiado, pois não recebera convite formal e debutava no clube justo em noite privilegiada, em que uma canção existiria por poucos minutos.

Teimou e se entrincheirou atrás de um pilar, vendo pouco e ouvindo tudo. Um dos espectadores, de sorriso franco e voz familiar, segredou na penumbra que o local lotava sempre. Ofereceu assento. Inadvertidamente ressoaram os primeiros acordes pelas paredes de tijolo à vista. Eram tríades menores ao violão. De repente, floreios dramáticos ao piano. No fundo da sala, frente às teclas pretas e brancas, Arthur de Faria, figura tarimbada na cena local. Ao lado, Omar Giammarco, um castelhano de quem nunca ouvira falar.

Parceria fadada a nunca tocar na rádio, elegeram um momento singular para brindar poucos neófitos. Cercada de expectativa, a meta-canção foi aparecendo em versos sobre sua condição passageira. Nada de bailes, top 10 ou assovios. Deveria existir como um segredo bem guardado. De uma noite só.

Era inspirada em grandes baladas do rock argentino (para o observador novato lembrava mesmo o clima do grupo Sui Generis). Ficou morrendo de vontade de cantar junto, acender um isqueiro, rir no intervalo de algum verso sagaz. Mas conteve-se. Até que o acorde final ficou ressoando, e toda a platéia aproveitou até o último segundo, sem respirar. Após silêncio absoluto, veio a transpiração coletiva num aplauso cúmplice. "Esta Canción" era formidável.

Pra surpresa geral, a noite não acabou ali. Seguiram tocando outras músicas menores. Sempre a dupla, alternando entre o piano e o acordeon, o violão e o cuatro. Disseram que intercambiavam há uns quatro anos e desfilaram o que se sucedeu neste tempo: mais baladas, chacarera, milongas. Tudo permeado pelo tom dramático, que inicia num acorde menor, e que ganha acentos diversos, dependendo do artista. Omar Giammarco é lírico, roqueiro, intenso. Rasga arpejos no violão, abafados como se tocara tango. Arthur de Faria faz o tipo mais tragicômico, teatral. Tecla notas ligeiras, pianinho, adornando melodias quase faladas sobre poemas de Aldir Blanc e Fernando Pessoa.

A noite inquietou e empolgou o espectador número um (- se tivesse ouvido antes o impecável disco "Nunca Se Sabe" de Omar Giammarco, não teria se surpreendido). Pensou que não poderia deixar aquela música, mesmo que fosse autodenominada menor, ficar perdida no vento, ou morrer no interior escuro de um clube de jazz. Capturou imagens disfarçadamente, sem flash. Juntou anotações de guardanapos e postou tudo na internet. Revelou índole traiçoeira, inadequando-se ao propósito secreto daquele happening musical. Deveria desculpar-se pela gafe, não fosse seu blog daqueles sem mulher pelada, nem receita de bolo, tampouco um único leitor.



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