O terceiro elemento do cosmos humano


Resenha do filme Melancholia (Lars von Trier, 2011)

Na arte, a metáfora corriqueira do humor dá-se pela oposição dégradé entre sol e lua. Há mil poemas, músicas, quadros, santos, filmes, que representam magistralmente a bipolaridade humana. Mas como metaforizar um humor que não compõe o rito diário terrestre? Que afetação seria essa: nem lunar, tampouco solar?

Pois o cineasta dinamarquês Lars von Trier filmou um terceiro astro, que paira por cima da cabeça de suas personagens num tempo de exceção em que lua e sol também estão à vista. A irmã balzaquiana, Claire, queima baixo os raios solares sem que estes iluminem a noite, enquanto o sobrinho desprende-se e clareia sua infância apoiado no satélite lunar. A protagonista Justine, por sua vez, entra em cena banhando-se nua na luz refletida do planeta Melancolia, que se aproxima da terra abreviando o fim de todos.

Falo do filme Melancholia, lançado ano passado, que ao meu ver cumpre função didática ao sensibilizar os menos inteirados sobre o assunto depressão. Basta acompanhar a metáfora essencial da melancolia, do planeta representando a síndrome psicológica. Assim, percebe-se que Justine não está num humor cotidiano, que varia entre o triste e o alegre. Durante sua festa de casamento, está apática. A seguir, enfrenta um longo momento de sensibilidade extraordinária. Percebamos: não é sol, nem lua, é melancolia.

Justine não sente o medo que os outros demonstram, com a possibilidade do planeta Melancholia provocar o apocalipse. E o filme não é sobre o fim do mundo, é sobre a melancolia. Isto ajuda a entendermos a mensagem, não hipervalorizando a catástrofe em detrimento do que ela simboliza para cada uma das personagens.

A história também ajuda a desfazer uma simplificação comum da melancolia, que é compará-la ao luto. Pois a personagem deste filme, ao contrário da de Anticristo (do mesmo diretor, em 2009) que perdeu seu filho, não tem motivos para tristeza, nem teve um acontecimento traumático que desencadeasse sua depressão.


No final da película, a aproximação catastrófica do planeta representa fortemente a superação da simplória bipolaridade humana. Em seu estágio paralelo de humor, Justine não sofre com medo ou neuroses e chega a um estado “de graça” em que as coisas tem o seu devido valor, não mais, nem menos. Na hora do fim, é ela, a pessoa aparentemente mais frágil da família, que protege sua irmã e seu sobrinho, com sua ternura e serenidade.

Por isto, apesar de a melancolia estar atrelada à ideia de doença, o enredo nos faz pensar além da patologia e enxergar o fenômeno como um acontecimento vital, que muda totalmente o rumo da pessoa afetada, seja para a morte ou para a plenitude do ser. Em metáfora: o choque do planeta contra a terra, dizimando a vida, ou o maior espetáculo do universo.


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