Aquele poncho pampeano reversível – show de Demétrio Xavier


Foi um programa de rádio ao vivo no palco do Theatro São Pedro. Às 21 horas em ponto, soou a trilha familiar, com aquele violão dedilhado. O roteiro como sempre começou com um poema recitado, o característico “ô, de casa”. Desta vez, “Destino do canto”, do tantas vezes reverenciado Atahualpa Yupanqui, em português e espanhol, claro. O primeiro convidado "para perto do fogo", aos microfones, foi o argentino Golondrina Ruíz. Logo na sequência, uma primeira canção, “Manifiesto”, do chileno Victor Jara:

Ahí donde llega todo
Y donde todo comienza
Canto que ha sido valiente
Siempre será canción nueva

“Bueno, gente”, saudou Demétrio Xavier, como de costume no "Cantos do Sul a Terra". Naquela noite de 26 de setembro, a saudação não viajava mais pelas ondas da rádio FM Cultura. O “governo do dia” revolveu tirar do ar o programa que a emissora veiculou durante sete anos. Mas a audiência se fez presente. Assim sendo, antes dos habituais comentários sobre música e cultura, Demétrio pediu uma salva de palmas à comunicação pública. De forma calorosa, o teatro cheio atendeu ao pedido, durante mais de um minuto.

A seguir, teve zamba, milonga e chacarera. Teve canção do uruguaio Daniel Viglietti, da chilena Violeta Parra, e parcerias com Marco Aurélio Vasconcellos, que também subiu ao palco. Do repertório próprio, a primeira foi “A sanga do Pedro Lira”, que o cantor-comunicador encerrou repetindo os versos da letra de forma recitada, para incluir um atual e pertinente bordão político:

Tem coisas que sempre são
Tem coisas que ninguém tira
Ninguém nelas interfira
- sobretudo, ele não.

O programa radiofônico deu origem ao disco “Cantos do Sul da Terra”, financiado pelo Fumproarte e produzido com ex-colegas da Fundação Piratini: Márcio Gobatto, Yara Baungarten e Rodrigo D'Mart. Todos os músicos que gravaram no álbum estavam presentes naquela noite de lançamento. Além dos já citados: Raúl Noriega, Laura Peralta, María Elena Melo, Marcelo Delacroix (foto ao lado) e Daniel Wolff. E todos voltaram no bis para cantar junto à plateia o clássico latino-americano “Canción con todos”, de Armando Tejada Gómez e César Isella, popularizado na voz de Mercedes Sosa.

Na borda do palco (no proscênio), longe do microfone, diante do público que aplaudia em pé, antes de “terminar as transmissões”, Demétrio ainda fez uma revelação. Disse que o poncho pampeano apoiado em sua cadeira durante o show não era só cenográfico, mas de uso pessoal. E o mais importante: era reversível. Então observou que não só o poncho: “Na vida as coisas são reversíveis”. Nas palavras dele, “dá pra virar vários jogos difíceis”. A demonstração de que isso é possível estava naquele teatro naquele momento: “aqui hoje com vocês”.

Tekoá: nome do projeto original do programa “Cantos do Sul da Terra”. Tekoá: expressão usada para designar aldeias guaranis - “quer dizer algo como quem nós somos, como nós nos vemos, como nós nos relacionamos neste nosso lugar comum”.

Leia mais sobre Demétrio Xavier nos links abaixo
Artigo na revista Vozes & Diálogo:
“Cantos do Sul da Terra, convergência na radiodifusão pública nos âmbitos cultural e tecnológico”
Reportagem no Jornal do Comércio:
“Bilíngue e sem fronteiras - Demétrio Xavier celebra sete anos de Cantos do Sul da Terra”





Ouça no Mixcloud algumas edições do programa que estão arquivadas:

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