O clube Insular tem radar - Gessinger, Esteban & Bisogno

Minha geração era fascinada pelos Engenheiros do Hawaii na década de 90. Pero, nos últimos anos, nem todos continuaram acompanhando a trajetória do grupo, que seguiu a pleno vapor. Nas últimas quinta e sexta-feira, parte de nós se reencontrou no bar Opinião em Porto Alegre, para assistir ao show “Insular”. Alguns ficaram com a sensação de que andaram perdendo algo (desde quando Humberto Gessinger tem dente de ouro?).

O líder da banda está agora em carreira solo, o que pouca diferença faz esteticamente. Pois mesmo quando em grupo, o trabalho sempre teve seu caráter. Gostávamos muito da fase ao lado do guitarrista Augusto Licks (tínhamos certeza que se complementavam artisticamente). Nas duas últimas décadas, outros bons guitarristas ocuparam a posição. O titular da vez é Esteban Tavares, que muito provavelmente trouxe mais sintonia com o rock atual e as novas gerações que passaram a curtir a banda ao nosso lado, ou no nosso lugar.

O alemão sempre se divertiu atualizando suas canções, mudando versos e arranjos nos shows e regravações. Ao seu modo, buscou em diferentes fases da carreira um som novo, em relação ao que produzia. Teve momentos de pleno sucesso nesta busca, como no acústico “Filmes de Guerra, Canções de Amor” (ímpar, se colocado ao lado dos genéricos produzidos pela MTV). Em “Gessinger, Licks & Maltz”, foi ao extremo do rock progressivo, pontuando com canções assobiáveis que marcaram uma geração, como “Pose Anos 90” e “Parabólica”. Já, “O Papa é Pop” é um disco conceitual que certamente está entre os clássicos do rock brasileiro.

Em “Insular”, Gessinger propôs a si mesmo um resgate de seu sempre presente interesse pelo regionalismo. Afora ter usado bombacha em figurinos de shows e gravado um disco chamado “Minuano”, diversas canções suas já fizeram referência à milonga e ao sul. Para a reaproximação com “as coisas da terra”, convocou o baterista Rafa Bisogno, da Comparsa Elétrica, grupo que acompanha o cantautor nativista Pirisca Grecco. Também chamou para parcerias Bebeto Alves, Luiz Carlos Borges e Nico Nicolaiewsky.

No prenúncio das gravações do disco, em 2013, (entusiasta do regionalismo que somos) ficamos curiosos para ouvir o resultado e nos reaproximarmos do compositor. Mas no fundo já sabíamos que a expectativa gerada podia ser demasiada. Por mais que quiséssemos, não surgiria ali um farol da música regional contemporânea. Afinal, Gessinger é um pop star. E esta constatação não é depreciativa.

Leia aqui: Humberto solo gaúcho

Então vamos ao que vale. Os Engenheiros do Hawaii sempre disseram pra nós gaúchos que nós éramos sisudos e ortodoxos demais com nosso tradicionalismo. Certa vez, gravaram Gaúcho da Fronteira com guitarras distorcidas. Então não tivemos dificuldade para entender a provocação das vinhetas de abertura e encerramento do show novo. No início, um carnavalito boliviano. No fim, o clássico mexicano Cielito Lindo. Vamos estender nosso regionalismo à latino-américa?

Gessinger se diverte colecionando referências, mas segue tocando rock, num disco agregador. Sendo um dos poucos músicos do Rio Grande do Sul que conquistou o mercado brasileiro, não podemos tachá-lo de “traidor”, “carioca”, ou qualquer outro impropério bairrista. “Insular”, então, é quase a fundação de um CTG, no sentido social do clube.

E musicalmente, o que se criou neste novo trabalho (CD e DVD)? A faixa "Milonga Orientao", ao lado de Bebeto Alves é bem interessante por integrar o experimentalismo do uruguaianense ao estilo “havaiano”. A versão ao vivo de “Somos quem podemos ser” é a cara de Gessinger. Pois canta as primeiras estrofes em outra altura melódica numa interpretação quase falada que remete a trovadores. Reinventou-se (de novo).

Mas talvez a música que mais sensibilizou aquela plateia lotada nas duas noites tenha sido "Tchau Radar". Tem o peso da novidade e está redonda na performance do power trio. A parceria com Esteban Tavares, evoca uma falsa despretensão. Na real é poderosa: “fica pra outro dia, ser uma obra-prima/ que não fede nem cheira/ não fode e nem sai de cima”.

Nota mental para novas e velhas gerações: não jogar luzes nas participações especiais de discos e shows de rock. A consistência de uma banda, se houver, provavelmente será encontrada no guitarrista, no baixista, no baterista, enfim, nos caras que "carregam o piano”.


Leia aqui também a cobertura do site Nonada - Jornalismo Travessia, com texto de Ananda Zambi.

Postagens mais visitadas