Cousas heréticas de quatro soldados ou mais

*resenha do livro Quatro Soldados, de Samir Machado de Machado, publicada no site Nonada.

Uma besta-fera que guarda um labirinto; um índio branco especializado em tocaias; um padre que pulou a cerca; um contrabandista de livros; um homem com o coração do lado direito do peito. São ricos os personagens do romance Quatro Soldados (Não Editora) de Samir Machado de Machado. O título inclusive resume demais a trama, e não sugere a dimensão diversa de sua literatura.

Seres fantásticos e homens mundanos, com defeitos tão evidentes quanto as virtudes, habitam a grande região de fronteiras fluidas entre Colônia de Sacramento e Laguna, nos anos finais da Guerra Guaranítica. O quarteto é o epicentro de quatro histórias que se cruzam, ou não.

Não sou um leitor entusiasmado de literatura fantástica, com a qual Quatro Soldados flerta. A verdade é que dediquei meu tempo ao livro pelo interesse na história e no imaginário das missões jesuítas e guaranis. Aconteceu que no final me deixei levar pelas criaturas. Evidentemente, a leitura proporciona dois níveis de fruição. Esse primeiro, pela qual fui seduzido, já garantiria um belo livro de aventura.

O autor privilegia anedotas inacreditáveis, que envolvem o leitor. Mas ao mesmo tempo oferece citações, intertextos e versões que remetem a outros livros, a lendas e principalmente às reduções jesuítico-guaranis que formavam os Sete Povos, onde hoje é o Rio Grande do Sul.

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Minha leitura foi em trânsito, enquanto viajava de Porto Alegre a Posadas, na Argentina, para conhecer as ruínas de antigas missões no país vizinho e no Paraguai, próximas a Encarnación. No caminho estavam as rodoviárias de Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Borja, etc., ponteadas pelas cruzes brancas de Lorena à beira da estrada. Claro que me interessei demais por trechos em que havia menção a um alferes morto e decapitado, ou à batalha de Caiboaté, ou ao discurso “Esta terra tem dono”, mesmo que o nome Sepé Tiaraju não estivesse explícito ali.

A imaginação de visitante às ruínas, somada às sugestões do livro, formaram uma mistura instigante. Garantiram uma leitura desafiadora. Quem não ficou sonhando o que aconteceria se houvesse passagens subterrâneas nas reduções, após uma primeira visita a São Miguel na idade escolar? Pois em Quatro Soldados há túneis debaixo da terra, padres que guardam segredos e lugares obscuros.

Dando asas à imaginação, há coisas não ditas claramente no romance. Nos primeiros parágrafos, fala na terra a qual deram o nome de um pau. No início parece estranho, parece que o autor está a esconder informações. Poderia escrever “Brasil”, logo. Mas depois vamos sendo levados pelos fatos, esses sim sua prioridade. Fossem os dados, datas e nomes, poderia se tornar apenas um livro chato de história.

Num dos pontos altos do volume, Machado reconta a lenda da mula sem cabeça. Mas só vamos nos dar por conta disso lá pro final da história, quando começamos a juntar os pontos. Sua versão macabra pode ser adjetivada também de realista, pois explicaria racionalmente como teria sido criada a lenda, baseada em fatos inusitados e na imaginação popular.

Lá pelo meio da leitura, o narrador passa para a primeira pessoa e revela que é um dos personagens. O Andaluz, sujeito gaudério que participa ativamente de duas histórias, é quem nos conta sua versão dos fatos. Desculpem pelo spoiler (asseguro que a informação não irá comprometer em nada o suspense). Tive que comentar este detalhe porque é meio irônico. Afinal, o tipo gaúcho não é protagonista da história missioneira, ao contrário de boa parte da nossa literatura, que trata de outros períodos. Machado não cai na vala comum do heroísmo e bairrismo gauchescos. Seu narrador é valente, ok. Mas também é um leitor ávido. E estas são só características mundanas. Assim, sem romantizar homens e seus feitos, o livro não oferece elementos de culto. Não são tempos maravilhosos ou de martírio louvável, que poderiam servir de gênese de um povo ou de uma identidade.

Como na desmitificação da mula sem cabeça, o romance sempre evoca a racionalidade. Podemos lê-lo como entretenimento e nos darmos por satisfeitos. Ou tentarmos fazer ligações entre a ficção e o pouco que aprendemos no colégio sobre o período missioneiro, absorvendo uma visão despojada, cética e alternativa da história.

Afinal, como é enfatizado ao longo das mais de 300 páginas, desde aqueles tempos coloniais, a Idade Média era pra estar acabando, cedendo lugar a um mundo mais iluminado. Quantos soldados perfilaram-se deste lado da trincheira?


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