Hiper retrospectiva gourmet do pampa


Vou aderir à temporada de retrospectivas do ano. 2014 foi marcado pelo ápice da gourmetização das coisas. Qualquer salão de festas de condomínio virou “espaço gourmet”. O cachorro-quente da esquina virou hot dog gourmet. Já deve ter até churrasco gourmet. O problema é que esta vulgarização do conceito aniquilou-o. Gourmet passou a significar tudo e nada.

Na música, outro conceito circulou, o de hiperpampa. Será que ele serve pra tudo que se produz na música contemporânea gaúcha?

Em 2014, houve centenas de shows. Vários deles comentei aqui no blog. Agora, à guisa de conclusão, proponho o comentário sobre três deles, aos quais não assisti. Sinto muito ter perdido Chico César interpretando Vitor Ramil no Unimúsica. Martirizo-me ao lembrar que Liliana Herrero cantou no Theatro São Pedro sem a minha presença. Tampouco fui ao salão de atos da Ufrgs no lançamento do DVD Rock de Galpão.

Poderia ficar quieto então, prevenindo-me de escrever bobagem. Mas não consigo. Estes espetáculos são um prato cheio para a reflexão estética sobre o tal hiperpampa. No YouTube pude ver os melhores momentos. Vou correr o risco. Podem depois me chamar de blogueiro gourmet.

Hiperpampa

Quem cunhou o conceito de hiperpampa foi Hique Gomes, formidável artista sul-rio-grandense, referindo-se ao trabalho da banda Rock de Galpão. O rótulo postularia a estética do grupo ao seleto grupo da vanguarda musical, sintonizada com a contemporaneidade. Mas tenho minhas dúvidas se essa designação serve para as versões norte-americanizadas de clássicos do nativismo que eles apresentam. Nada contra. Tem mais é que misturar tudo, mesmo que o resultado não alcance algo novo.

Para efeito comparativo, podemos lembrar das versões que Hique Gomes e Nico Nicolaiewsky faziam no musical Tangos & Tragédias. Eram arranjos refinados, de violino e acordeão, ou piano, para sucessos populares, como Meu Erro (Paralamas do Sucesso) e Roxanne (The Police). Caíam muito bem no espetáculo, acrescentando a veia humorística e sensível da dupla às composições, de forma surpreendente.

Mas o Rock de Galpão não surpreende. Em primeiro lugar, não há novidade em misturar folclore com rock. O grupo Almôndegas já fazia isso nos anos 70. Nos anos 80, os Engenheiros do Hawaii fizeram sucesso nacional com a milonga-rock Longe demais das capitais. A Graforréia Xilarmônica também fez esta fusão em 1988, na primeira demo de Amigo Punk, de forma super antropofágica. O Tambo do Bando criou uma versão heavy metal de Homens de Preto em 1990. A banda Doidivanas era puro rock bagual. Devo estar esquecendo de outros exemplos que só reforçariam esta tese.

Se é pra falar de guitarra misturada com folclore em 2014, vamos lembrar de outro show a que não assisti. A cantora argentina Liliana Herrerro apresentou o show Maldigo no festival Porto Alegre em Cena. O álbum homônimo (esse ouvi bastante) é mais pesado que a maioria das bandas de rock pensa ser. Ouça abaixo a canção La Diablera pra entender melhor do que estou falando. Aí que eu me refiro a música contemporânea!


A fórmula do Rock de Galpão é a seguinte: acelerar as batidas e pasteurizar as harmonias, incluindo ruídos eletrônicos. Tudo vira tchacumbum. A riqueza rítmica, de milongas a chamamés, desaparece. Fica só o tom bravateiro de algumas letras, e a empáfia heróica de muitas outras.

Um dos responsáveis pelo projeto foi Neto Fagundes. Atuou como vocalista no início, dando visibilidade. Prefiro outro momento da carreira do cantor e apresentador. No Musicanto, em 1986, ele cantou Brasilhana, do argentino Talo Pereyra e do gaúcho Robson Barenho. A mistura de milonga e carnaval tinha gosto de música brasileira, daquelas que pode tocar tanto em Porto Alegre quanto no Rio ou em Salvador.

Brasilhana estava em sintonia, lá nos anos 80, com o show que Chico César apresentou em 2014 na capital gaúcha. Pude assistir a boa parte do repertório no YouTube e fiquei desolado por ter perdido. O paraibano ignorou a distância entre o lugar onde nasceu e o lugar onde as canções de Vitor Ramil foram criadas. Botou seu sotaque nordestino na interpretação de letras que falam do campo sulino. Fez rap, moda de viola e acalanto. Não seguiu fórmulas prontas. Deu vazão a sua sensibilidade artística.

Usando expressão do gourmet Homi K. Bhabha, no livro O Local da Cultura (1998), podemos dizer que Chico César situou-se no entre-lugar, onde se abre a possibilidade de um hibridismo cultural, e de algo novo surgir nestes tempos hiper. Sua teoria é otimista, balanceando com os pós-modernismos catastróficos que abundam. Para o quituteiro Fredric Jameson (1996), por exemplo, a tônica estética da pós-modernidade é o kitch, ou “pastiche”. Trata-se de um processo de imitar estilos “mortos”, estocados no museu imaginário de uma cultura global, superficialmente e sem conteúdo, manifestando através da imagem e da moda, valendo-se de evidente apelo emocional.


O que este tal de pastiche teria a ver com o Rio Grande do Sul de 2014? Vou tentar lembrar. Em setembro, fotografei um acampamento campeiro no centro de Porto Alegre. Vi compartilharem nas redes sociais imagens de um desfile tradicionalista alegórico em Passo Fundo. Assisti na TV negros fantasiados de gaúchos, montados a cavalo no asfalto à beira do Rio Guaíba. Entra ano, sai ano, continua evidente que a identidade gauchesca é um processo onde o personagem da celebração, do viver cultural e imaginário, está desvinculado do fazer produtivo-social, em uma fragmentação pós-moderna.

O chef Jean Baudrillard credita a proliferação do “kitsch” à realidade da sociedade de consumo, que produz a multiplicação industrial e a vulgarização, ao nível do objeto, dos signos distintivos tirados de todos os registros (o passado, o neo, o exótico, o folclórico e o futurista). Seriam esses os ingredientes do mais novo prato, o hiperpampa?

Se o nosso tempo é hiper ou pós-moderno, parece tri kitch fazer cover roqueira de música regionalista. Cheira a gourmetização, a imitação. Pra quem busca o sabor novo e surpreendente, por tanto, recomenda-se provar da música temperada com criatividade. Onde o cozinheiro não rotula a receita, nem se prende a ingredientes campeões de vendas, ou à expectativa dos paladares menos iniciados nos múltiplos prazeres da gastronomia. E da música.

Agora leia sobre os shows a que de fato assisti em 2014:

Arthur de Faria e Omar Giammarco em: Uma noite sem radiodifusão

Reconhecendo nosso contemporâneo Radamés Gnattali

Buscas analógicas e digitais sobre a performance de Vitor Ramil

Antonio Villeroy volta auto-traduzido em Samboleira

No altar da música gaúcha, Alabê Ôni

De Brasília a Porto Alegre, no bandolim não tem bairrismo

Poa Jazz Festival atesta que a humanidade está longe do fim

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