Filme retrata integração cultural na fronteira entre Brasil e Uruguai

*reportagem originalmente publicada no Jornal do Comércio, no caderno especial da 60ª Feira do Livro de Porto Alegre (acesse aqui a versão online)

Still do filme A Linha Imaginária (foto: Felipe Campal)
Na região de fronteira entre o Brasil e o Uruguai vivem mais de 1,5 milhão de pessoas. Para além da integração econômica, nos últimos anos, as atenções têm se voltado para a integração cultural. Esse tema gerou o filme A linha imaginária, exibido e debatido na Feira do Livro.

Nos primeiros minutos do média-metragem, o escritor Aldyr Garcia Schlee afirma que “a fronteira política não tem nada a ver com a fronteira cultural”. A fala serve como sinopse do documentário dirigido pelos pelotenses Cíntia Langie e Rafael Andreazza. O roteiro apresenta diversas entrevistas. Além de Schlee, aparecem moradores fronteiriços e artistas como o compositor Chito de Mello, o poeta Fabián Severo e o músico Ernesto Díaz. Os depoimentos e imagens foram captados nas fronteiras do Chuí/Chuy, Aceguá/Aceguá, Santana do Livramento/Rivera, Jaguarão/Río Branco e Quaraí/Artigas.

No debate após a sessão, o diretor Rafael Andreazza relatou o processo de produção e opinou sobre o tema que o filme suscita. Ele acredita que “é uma violência estabelecer uma fronteira” e lembra que, durante a ditadura, se defendiam as questões nacionais, principalmente a língua, de forma que os países vizinhos eram ignorados. Mas hoje Andreazza enxerga um fenômeno recente de aproximação.

Acesse aqui o site da Moviola Filmes.

Convidado para o debate, o músico e radialista Demétrio Xavier aprovou o filme, pois vai ao encontro de sua preocupação de pensar a fronteira como região ampla cultural. Saudou o cuidado no roteiro para não resumir ao gauchesco a semelhança entre os países.

O historiador Eduardo Palermo afirmou que não se considera uruguaio, mas fronteiriço. Ele havia autografado pouco antes na praça o livro Tierra Esclavizada (Ed. Livraria Palmarinca), sobre os escravos na região fronteiriça. “A gente não pensa em termos de Uruguai ou Brasil, mas em fronteira”, relatou. Para ele, o filme resume muito bem algo que está em permanente movimento e enumerou as mudanças de domínios, ao longo dos séculos, nas disputas entre Espanha e Portugal.

Andreazza, Palermo, Ricardo Almeida e Demétrio Xavier
(foto: Claiton Dornelles/JC) 
Palermo observou que o que as pessoas pensam sobre a fronteira nos grandes centros, como em São Paulo e Montevidéu, é bem diferente do que acontece de fato. “Para entender a fronteira, temos que vivê-la”, concluiu. Como exemplo, relatou que nas escolas de Rivera estuda-se espanhol em sala de aula, enquanto no recreio fala-se portunhol.

Demétrio Xavier pediu licença para uma divagação intuitiva. Segundo ele, o gaúcho original teria montado uma sociedade alternativa. Sua tese é que os gaúchos não eram tão violentos quanto o resto da sociedade na época, pois se relacionavam com todos os tipos sociais, configurando um ambiente de inclusão e tolerância. “Eram bárbaros, não violentos; violenta era a sociedade”, reiterou. Palermo contribuiu lembrando que, na fronteira, a discriminação costuma ser menor, enquanto a liberdade é maior.

Cabe aqui citar a parte final do filme, em que Aldyr Garcia Schlee falou que a tradução do pronome espanhol nosotros seria “nós somos nós mesmos nos outros”.

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