Marcelo Delacroix, o bárbaro terno


O sujeito tem a estampa de um bárbaro. Mas a estatura acompanha paradoxalmente uma ternura que se traduz em arte. Quando assisti ao Marcelo Delacroix, em Porto Alegre, pela primeira vez, tive uma impressão comparável à quando fui apresentado ao amigo Eliézer Machado Aires, de Passo Fundo. Ambos cantautores, enchem a sala, o salão, o teatro, e até as praças deste estado, com intensidade e leveza, expressas no olhar e na voz.

O corpanzil de Marcelo Delacroix coexiste com a dádiva de seu límpido timbre de barítono. Suas escolhas estéticas acompanham delicadeza e precisão musicais que o gabaritam a conquistar ouvidos além-mar. Não por acaso, para ser universal, canta a aldeia.

O segundo disco "Depois do Raio" (2006) é impecável técnica e artisticamente. A faixa que abre, "Cantiga de Eira", uma releitura de Barbosa Lessa, eleva o tema folclórico a patamares da música contemporânea, podendo confundir saudavelmente o ouvinte mais desatento, entre os universos sulino e do Clube da Esquina mineiro. E as canções seguintes, muitas parcerias com o poeta Ronald Augusto, seguem na linha de inspiração regional e de MPB, com coesão e limpeza na linguagem.

O paradoxo proporcionado pela fisologia do artista na verdade é um clichê: sinal da grandeza que guarda no interior. E é tão grande que, ao exteriorizá-la, o faz na medida exata, sem sobre-saltos ou atabalhoamentos.



Escrevo este texto após sucessivas audições do álbum "Depois do Raio" e do show 30 Anos de MPG, realizado ano passado em Porto Alegre. Na ocasião, pude perceber o valor deste artista, ao lado de outras gerações. Tenho a impressão que ele invadiu barbaramente o território da música do sul, lapídando com perfeccionismo cada peça oferecida ao público, mas deixando arestas sempre abertas para que a arte se recrie.

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