Banzo bom e o disco délibáb de Vitor Ramil


Um acorde menor costuma levar o leigo a um lugar desconfortável. Uma milonga densa freqüentemente produz aridez no atavismo de bailes de dó de gavetão. Com pesar,  tal repulsa mina incestuosamente nossa vital melancolia.

De costume, ouço Vitor Ramil desde 1999. Era inverno em Passo Fundo e eu trabalhava como voluntário na nona edição da Jornada Nacional de Literatura. O cantautor era convidado. Iria soar acordes menores na platéia formada essencialmente por professoras de primeiro e segundo graus, como se denominavam na época. Alheio à conversa de pipoca e chimarrão que pululava do público, ciceroneei-o e tietei pedindo autógrafo no primeiro disco que comprei: Tango.

Recém havia lançado Ramilonga, seu clássico, que alçou o gênero platino à intimidade e à contemporaneidade. Este fui escutar com mais tempo.

Mais de dez anos depois, já tinha a discografia completa, quando, na mesma linha, veio o álbum “délibab”, minimalista nos arranjos, profundo na poesia. Musicou o argentino Jorge Luis Borges e prosseguiu com o pelotense João Cabral de Melo Neto. Cantou em duo com Caetano Veloso em uma das milongas, não por acaso a que fala de escravidão.

São tempos distintos do marasmo do final da década de noventa, e confesso: uma certa repulsa de terça menor mediou minhas primeiras audições, lá na aridez de uma quitinete em plena capital federal, no século vinte um. Mas fiquei pensando: será que uma vanera em lá maior me tiraria do banzo? Improvável.


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