O prazer em comer o país


Quarenta anos após Oswald de Andrade inventar o Manifesto Antropófago (1928), Caetano Veloso inventou o Movimento Tropicalista (1968). Chegamos a 2008. Caso crêssemos que o mundo funciona em ciclos, estaria na hora de um novo messias.

Urge nas estradas da hiper-informação algum intelectual pretensioso, disposto insanamente a re-fundar a cultura brasileira e a re-apontar a direção do futuro após seus feitos. Assim foi o Manifesto Antropófago do início do século XX, que induzia o brasileiro a redescobrir o Brasil, mantendo o bacanal e a fartura que ora afirmam ter existido, mas deixando a dizimação indígena em nome da boa-aventurança multirracial. Resumindo: para haver cultura brasileira, todo mundo deveria comer tudo.

Caetano, que é chegado em uma comilança, se disse inspirado na antropofagia após inerte hiato de 40 anos. Meteu-se nesta querela julgando-se apto a ditar a nova tendência artística de seu tempo. Deu em Tropicalismo.

Mas o que significaram tais proposições e o que resguardam para inspirar nossos tempos urgentes?

Em um mundo onde o francês Gilles Lipovetsky afirma estarmos no segundo estágio da cultura do consumo, indagamo-nos hoje que prazer teria trazido um long-play-manifesto, programas musicais de televisão e happenings de efusiva repercussão, no Brasil. Que parte do cérebro se ativa quando se aprecia uma canção cheia de metáfora e sonoplastia, como Panis Et Circensis?

Como pista deste imbróglio, creio que Caetano explorou a conjunção criativa de dois campos, dentre os quais imaginamos abismos hoje: o da cultura de massa e o da arte de vanguarda. O baiano entrou e saiu de todas as estruturas, como ele mesmo afirmou em um de seus happenings, no III Festival Internacional da Canção, em 1968. Sua opulência criativa invadiu as novas relações inter-pessoais, mediadas e condicionadas pela lógica do beneficiamento mútuo. Ou seja, ele dominou a indústria oferecendo a chance do consumidor se transformar em brasileiro arrojado, através de um processo de intensa identificação. O compositor semeou no imaginário brazuca uma possibilidade de sermos prazerosamente nacionalistas, sem relação alguma e até em contraponto a um civismo-militarista muito “desgastado” na época, como proposta simbólica de apelo público.


Enquanto os militares representavam a dor. O Tropicalismo representava o prazer. Corpos seminus, sol, psicodelia, praia, guitarras e felicidade. Um produto irresistível. Então boa parte da classe média brasileira comprou Caetano. Consumiu. Comeu. Transformou seu movimento estético em parte do seu ser, em um eminente fenômeno antropofágico de massa (uma massa com números menos expressivos de Ibope que hoje).
Agora, no mercado fonográfico atual, onde se exacerbam estéticas sem inspiração, mas com muita transpiração, haverá um bárbaro insurgido que num levante de brilhantismo artístico destrua o império do nós-tocamos-o-que-o-povo-gosta? (- convenhamos! Enquanto povo, o maior prazer está em desvendar e saborear o que não sabíamos que gostávamos, mas que foi proposto de forma inovadora por algum inconseqüente).

Mesmo diante de um pessimismo crônico entre os fãs mais saudosistas, há motivos para fervorosamente por fé na reencarnação da criatividade. Nem que seja de roldão, em uma estratégia de marketing para atender a um novo público em potencial, há de baixar em nossos ouvidos uma explosão musical revigorante, que traduza esta pátria hiper-tropical. Nem que seja por download! Ou por discos de banana. Já imagino até o slogan: “Comprou, ouviu. Comeu, ficou feliz”!

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