Processos culturais pós-150 anos


Sobre a aniversariante cidade de Passo Fundo

O cruzamento entre a Avenida Brasil e a Fagundes dos Reis me inspira esperança. Houve um tempo não muito distante, aquele local era tapado de publicidade dos mais diferentes apelos. A fachada do prédio da esquina oposta ao Colégio Protásio Alves, então, era decorada pelos mais esdrúxulos ornamentos. Naquele tempo, se um dia instalassem lá um elefante branco, não surpreenderia a ninguém. Mas o que parecia improvável aconteceu. Em 2007, construíram um novo teatro (Sesc), removeram os outdoors e a concorrida esquina recebeu uma loja de roupas que respeita a arquitetura do prédio que sobrevive ali.

Esta localidade de Passo Fundo diz muito sobre sua cultura. Então, pode-se concluir que a perspectiva é boa atualmente. E daqui a 20 anos, que paisagem iremos construir? Radicalizando, ou a cidade se transformará na Las Vegas do Planalto, com muitas cuias gigantes enfeitando uma paisagem high tech, multifacetada por anúncios, monumentos e títulos; ou a cidade irá firmar pé no que é próprio de seu cotidiano, edificando uma urbanização condizente com as necessidades, anseios e bem-estar da população.

Estes são os dois principais caminhos estendidos na estrada alcunhada de pós-modernidade. Ou se aprecia com moderação as interfaces postas pela globalização, aproveitando para produzir algo novo e coerente com a localidade; ou se juntam as referências estancadas no imaginário, com ajuda da tecnologia, para reproduzir estereótipos. O que é Las Vegas se não um amontoado de referências estéticas sem raiz no deserto norte-americano? Se seguirmos a mesma lógica em Passo Fundo, adornaremos aleatoriamente nossa cidade com luzes, cores e formas. Então, daqui a 20 anos teremos uma cultura ornamental, que nos provocará uma forte crise de identidade, maior que a que vivemos hoje. “De onde veio tudo isso?”, indagar-nos-emos.

A escolha é simples: ou percorremos uma próspera estrada de franco desenvolvimento das potencialidades culturais no setor de serviços, incrementando a economia local e edificando socialmente o título de Capital Nacional da Literatura; ou traçamos a brega via da estagnada auto-referência, que terminará num beco, onde haverá um espelho olhando para dentro de nós.

Analisando a cena cultural hoje, preocupam-me nossos vícios político-culturais que se arrastam de mandato em mandato. Apraz-me o que pipoca independentemente de vontades conjunturais, como o movimento hip hop. O que prevalecerá? O campo cultural irá se profissionalizar e se impor? Ou continuaremos gastando o erário público em práticas diletantes?

Daqui a 20 anos, a Avenida Brasil estará no mesmo lugar, com seus arborizados canteiros largos.


O que irá mudar será de que forma iremos ocupá-la. Continuaremos socializando o chimarrão, sentados nos bancos das praças aos domingos, ou iremos apontar o som de nossos carros, uns contra os outros, como bazucas de volume e de mau gosto?

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