Passo Contemporâneo - Do Fundo do Quintal do País


Em 2004 e 2005, realizou-se um show musical pretensioso na cidade de Passo Fundo (RS). Todo aquele debate cultural contemporâneo, de hibridismos e regionalismos estava ali. As escolhas dos músicos, demonstradas no palco, evidenciavam uma imensa vontade de criar o novo. Para tanto, utilizaram referências abundantemente disponíveis neste mundo de aldeias globais.
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Aqui irei contar um pouco sobre o “Passo Contemporâneo – Do Fundo do Quintal do País”.
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Participei como músico, produtor e diretor, ao lado do super-artista Eliézer Machado Aires. Inventamos um cenário onde acentos gauchescos sentavam em ritmos brazucas, nada original, mas muito particular. Pois a criatividade vinha na frente da mistura, no quesito deleite. Assim interpretamos canções nossas, de amigos e de ídolos que pouco transitam no mundo da indústria do entretenimento.
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Nosso norte era o sul. Afora a contradição semântica, empenhamo-nos em definir um pedaço simbólico que nos identificasse profundamente como artistas. Entre o regionalismo carnavalesco e as estradas da superinformação, tateamos um entre-lugar harmônico em nossa condição de indivíduos atrelados a uma cidade, no interior do mundo afora.
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Seria possível chegarmos a algum lugar, sem falar a língua do rádio, tampouco o dialeto cetegista?
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Neste texto, vou tentar ser menos pretensioso do que fui no espetáculo. Portanto não abordarei a indagação acima com vistas a respondê-la. Apenas relato aqui, que tocar música com um desafio estimulante destes é um prazer superior a tocar standards da MPB na praça de alimentação de um shopping, como já experimentei.
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Grupo heterogêneo
Em 2004, o formato do show não estava bem definido ainda. Integramos o calendário do festival Teatro em Cena, promovido pela Universidade de Passo Fundo em parceria com o SESC. Junto a um grupo base, de instrumentistas e compositores, participaram como convidados a banda Bilubi.du e Ricardo Pacheco. Naquela formação tínhamos na percussão Odorico Ribeiro e Zé Barbosa. Nos violões e vozes, eu, Eliézer Machado Aires e Fabiano Lengler. Compunham ainda o conjunto André Munari (acordeon), Gadiego Ribeiro (contra-baixo) e Carlos Bolacha (guitarra).
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Em 2005, o grupo foi mais enxuto, com a intenção de facilitar a produção e tornar o trabalho estético mais coeso. A mim, Eliézer, André, Bolacha e Odorico, juntou-se Pablo Corazza (violino), que completou o “time”.
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Registros
Daquelas noites de 2005, ficou a gravação da UPF TV e o áudio captado direto da mesa de som. São registros sem grandes produções, tampouco qualidade técnica. Mas mantêm na história a nossa pretensão de sermos artistas inventivos. Menos circo, mais inspiração.
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Não criamos nada novo, pois há músicos excelentes dedicando-se a isto hoje no sul do Brasil: Bebeto, Nei, Ramil, etc. O importante é que naquele show não estávamos tentando imitar ninguém. Não estávamos seguindo nenhuma receita, nem almejando sucesso industrial. Queríamos ser nós mesmos. Ou tentar descobrir quem de fato nós somos. Vivendo em uma cidade de 190 mil habitantes, tocando em um teatro de 300 assentos e climatizado pelo calor humano que se juntou no inverno dos anos dois mil.
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Algumas canções do show de 2005:
Alô Buenas (Kledir Ramil)
Guaraná de Rolha (João V. Ribas)
Ontem 2000 (João V. Ribas)
Dom de Vir (João V. Ribas/ Luiz O. Ribas)
Mudança (Caetano Silveira/ Ricardo Pacheco)
Sétimo Céu (Eliézer M. Aires)
Negro Coração (Alegre Corrêa/ Raul Boeira)
A Um Passo de Qualquer Lugar (Eliézer M. Aires/ João V. Ribas)
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Uma letra:
Agora vamos pra casa
(João Vicente Ribas/ Ricardo Pacheco)

Já andamos de fatiota
E era branca, ficava impecável
Naquela terra vermelha
Até os bailes

Já gastamos pares de botas
E voltamos tapados de bala
Trazendo beijos roubados
Lábios desembainhados

Agora vamos pra casa
Na poeira, de chapéu a prumo
Já volteamos o salão inteiro
No palco, fomos pra valer
Deixamos o coração numa cestinha na porta do mundo

A foto da sbórnia tá na camiseta
Ficou na história
Porque provocamos ouvidos virgens nas feiras
Credo! Que bagaceiras!
Fomos soldados de cabelos longos
Hoje doutores de uma nova arte brasileira
Pelo sim, ou pelo não.

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