O lugar da música do sul no apartamento do pós-alguma-coisa

Começo por Adriana Deffenti, por vir antes de Almôndegas na ordem alfabética e por estar realizando um show de lançamento do seu segundo disco no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, daqui a algumas horas. Estou distante disso uns 280 quilômetros, no meu apê interiorano. Também estou ouvindo no Stereo System seu primeiro disco. Um aquecedor 2000W Mondial Line me faz companhia. Penso no frio. O que não é nada original. Penso nele como convidado especial ao espetáculo de Adriana. O teatro, as canções, a platéia e... o frio. Deverá estar completo o ato.

Adriana Deffenti foi backing vocal de Nei Lisboa. Foi mais que isso: foi quem transformou o disco “Amém”, gravado no mesmo São Pedro, em acalorado duo. Nem mesmo a esfriada que deram na capa do LP, estampando uma porta azul pairada num lugar do urbano sul, foi capaz de baixar a temperatura dentro daquele álbum.

Antes de mais nada: tudo em favor da estética do frio! Vitor Ramil está hoje finalizando o disco "Satolep Sambatown", em parceria com o tropical percussionista Marcos Suzano. Samba? Não era estética do frio? É. A coerência intelectual de Vitor permite que eu teça este comentário antes de ouvi-lo. E aposto aqui: a estética sulina de Vitor está sendo acalorada. O disco "Tambong" foi isso! Estética do Frio é Vitor Ramil. Vitor Ramil é Estética do Frio.

Estes são artistas que acumulam experiência, que se enriquecem nela. Ao contrário do meu apartamento de porta fechada, lugar com fronteiras de concreto. São artistas que constroem o novo no “entre-lugar”. Falo do “além”, do pós, do “entre-lugar” de Homi Bhabha. Falo da parceira entre Jorge Drexler e Ramil, concretizada no novo CD. O que os dois compõem juntos está entre Brasil e Uruguai. Não é isolamento, nem pastiche. Não é um aperto de mãos diplomático. É a mistura de suor produzida pelo encontro de ambas as mãos.

Frequentemente, perguntamo-nos onde mora a música do sul. Na indústria cultural local? Subindo rumo ao centro do país ou à Europa? Gravando discos pelo Funproarte – o fundo de incentivo à cultura da Prefeitura de Porto Alegre? Num violão tocado na beira do rio Uruguai? Nos resistentes festivais? Na Acit ou na USA Discos? Nos CTGs? Em todos estes lugares que provêm divisas que sustentam o músico profissional, ou não.

Mas quem financia o encontro da música do sul brasileiro com o Uruguai? Há dinheiro no “entre-lugar”? Posso dizer que mais do que divisas, há criatividade e inventividade.

J
“Lá no fundo do Rio Grande tem crianças, tem mulher, minha cama aconchegante e na mesa meu talher. Mas tem léguas de viagem, tanto carro pra enguiçar, os sinais dando vermelho. Eu queria ser um pássaro e voar, braços abertos pra abraçar nossos carinhos, jogar fora essa bagagem, desfazer os descaminhos e matar essa vontade de chorar” (Jerônimo Jardim)

K
“Eu sou do fim do sul, do fundo do quintal do país” (Kleiton Ramil)

L
“Há mais sul em meu rosto quando chego em tua casa” (Luiz Sérgio Jacaré Metz)

[...]

P
“Una zambita nueva, que marca el compaso taipero, una zambita que lleva el amor ao mundo inteiro” (Pirisca Grecco)

[...]

V
“Vaga visão viajo e antevejo a inveja de quem descobrir a forma com que me fui. Ares de milonga sobre Porto Alegre. Nada mais, nada mais” (Vitor Ramil)

Para finalizar, vou citar um baiano: Gilberto Gil, que compôs "Outros Doces Bárbaros", que diz “outros bárbaros, tão doces, tão cruéis, seguem vindo/ vivendo seus papéis de mocinhos e de bandidos/ será que ainda temos o que fazer na cidade?/ Em nossos corações já reside um quê de saudade”. Uma referência ao grupo Doces Bárbaros, formado por ele, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia, os “baiunos” que invadiram o território da música brasileira, que se situava no Rio de Janeiro dos anos 60.

Aí fico pensando no frio e no quanto os artistas que já citei têm de bárbaros. Bárbaros vizinhos, que fincam o pé na porta. Rasgam o regulamento do condomínio. Descumprem acordos para o engessamento do prédio. Instalam-se nos corredores. Jantam no elevador. Desestabilizam com incômoda inventividade os lugares demarcados dos apartamentos.

Comecei o texto com Adriana Deffenti. Termino com Zé, o Outro Bárbaro. Mas a história dele ainda não pode ser escrita. Ele ainda não nasceu e não brilhou nos palcos do pós-alguma-coisa. Ainda...

Escrito no inverno de 2007 e publicado hoje, após um grande show do Vitor Ramil no Teatro do SESC em Passo Fundo, no sábado. Desculpem o atraso...

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