O toque sutil que muda a cor do mundo

Cesar Santos lançou o disco "Da porteira pra dentro" em Porto Alegre no dia 19 de julho,
ao lado da filha Luiza e da Calhandra de Ouro

Mauro Moraes chegou com sua boina indefectível. Sentou na primeira fila. O teatro Renascença na capital do estado recebia naquela noite música vinda de Uruguaiana, sua terra natal. A presença do compositor de tantos sucessos do nativismo, prestigiando a nova geração, atestava a boa procedência? A ouvir.

Cesar Santos ocupou o palco acompanhado por músicos experientes, de uma geração que pegou a mania de recriar a música regional e não soltou mais. Abriu o show com a canção que dá nome ao disco, “Da porteira pra dentro”, o qual vinha apresentar ao público porto-alegrense. Na partida, seu violão bem dedilhado, como se tocasse MPB, com suingue, com arranjo de convenções melodiosas. A letra maternal oferecia aconchego aos conhecidos e recém chegados. Um convite eficiente para o público adentrar e se sentir em casa.

"É um toque sutil que muda a cor do mundo",
verso de Flor na mão, de Cabo Déco e Cesar Santos
Depois dessa e de outras, embalando campeirismo e coração, nem as canções em compasso ímpar, como “Visões momentâneas”, desconcertariam a audiência da capital. Em Uruguaiana, berço do nativismo, ninho da Calhandra de Ouro, Cesar Santos conquistou em 2013 o primeiro prêmio com “Petiço Mapa-Mundi”, melodia cantada sobre compasso de cinco tempos – algo não usual na música popular. Foi uma das tantas parcerias com Rafael Ovídio, o Cabo Déco, que preenchem as faixas do disco com uma poética sensível que dá a volta no globo. O companheiro também veio de Uruguaiana para o lançamento. No palco, disse poemas em meio a uma e outra estrofe das canções, com sua postura um tanto contida, mas assertiva. Vestia uma touca de MC e apontava o dedo para ratificar a contundência de suas rimas.

Leia também no blog:
Cabo não se mixa pra coroné - Califórnia da Canção Nativa volta ao mapa encilhando um petiço
De sangue doce, Pedro Ribas chega na roda com a turma toda

Além do repertório das 11 faixas do disco, Cesar Santos exibiu outras parcerias, como "Uruguaiana Cayetana", gravada por Pedro Ribas no álbum Ladainha Campeira. Ao vivo, mostrou uma versão pungente, com destaque para a percussão de Bruno Coelho. O verso “negros lanceiros avançam numa coxilha de pedra/ esfarrapados famintos se lançam de alma na guerra” brilhou de forma inominável.

Já mais para o final do show, o compositor empunhou a guitarra, lançando mão de distorções, para interpretar uma série mais pop, com a filha Luiza dançando ao lado. Entre elas a música “Zunzum”, criada ao lado de Túlio Urach, que tem um arranjo de metais empolgante na versão gravada no disco.

Tanto as gravações quanto as performances ao vivo são  resultado evidente de dedicação e sensibilidade em torno da música. Cesar Santos canta com voz clara, e dicção emepebística. Toca violão e guitarra com técnica apurada. Também são fruto da coesão de um grupo de músicos talentosos que se juntaram para tocar no disco e no show. São eles: Guilherme Goulart (acordeom), Guilherme Ceron (baixo), Bruno Coelho (percussão), Sandro Bonato (bateria) e Paulinho Goulart (teclados).

Um som que ecoa lá da fronteira oeste, produzido por um porto-alegrense desgarrado. O crítico de música Juarez Fonseca, em maio no jornal Zero Hora, já havia saudado seu sonido como uma revelação. Ao final do show do último dia 19, Mauro Moraes pediu bis.



Guilherme Goulart

Bruno Coelho

Guilherme Ceron

Paulinho Goulart

Sandro Bonato

Cesar Santos

Postagens mais visitadas