Romance de estreia de Cristiano Bernardes coloca nossa Porto Alegre do avesso

(foto: Gabriela B. Lobato)

Alteridade: aquele exercício reflexivo, latente em certos escritores que jogam seus leitores no mato. Tal o autor daquele livro sobre favela, que coloca a emoção de quem lê lá dentro. Às vezes logo na capa, por meio de uma imagem, introduz e provoca o bem disposto que pega o volume na prateleira. Noutras, em uma tocaia benfazeja, pega no pulo alguém que passaria ao largo, mas que acabou adentrando as páginas desavisado ou por outras razões.

Cristiano Bernardes (Cachoeira do Sul, 1974) estreia na literatura como quem já sabe destas manhas de conquistar batendo na cara do outro. No romance “Contraêxodo (ou, quando deus arranca os dentes...)”, ludibria nossa boa índole encharcada por senso comum sulino. Fisga-nos de antemão somente pela carga que colecionamos em atos familiares de representação. Primeiro, por nosso desejo egoico de transpassar os devaneios de apartamento imprimindo caracteres a serem vendidos encadernados. Afinal, é também um meta livro de um escritor em crise criativa. A seguir, o nosso compartilhamento "óbvio" de pertencer diferenciado a um frio pretensamente único no planeta. Esta busca identitária certamente move muito nossas escolhas na livraria.

Adentrando a intimidade para depois sair percorrendo as ruas, o livro relega o radicalismo do frio a uma fantasia mal elaborada que fica pelo caminho. Já o calor, dominando cada vez mais a cena, vai fervendo fidedigno a água do mate. Afinal, trata-se de uma história situada em Porto Alegre, em fevereiro. Como ser diferente? Como não ultrapassar os 70°C?

Resenha publicada no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, em 15 de julho de 2017


Não irei aqui entregar os desdobramentos do enredo de "Contraêxodo". Mas vale a pena chamar atenção para a competência com que oferece quebra de expectativas ao leitor. Não como em uma reviravolta de um mistério policial, mas como um deslocamento do lugar em que estamos sentados com o livro nas mãos.

Cristiano Bernardes faz a crônica crítica e afetiva da capital que insistiu durante anos nas tintas do passado interiorano para definir uma identidade regional, enquanto lidava com dificuldades para acolher as diferentes expressões do presente, as quais as gentes trazem na bagagem todo dia adentrando a rodoviária e as estradas que alimentam a metrópole.

Há crítica social e cultural, tributária da linha literária do gaúcho a pé. Inclusive os personagens saem caminhando pela cidade, perdem-se, correm, estranham-se, tomam um ônibus. Mas o local de fala não se restringe à superação do centauro dos pampas. Longe de representações modernas que prometem explicações e simbologias prontas para serem aderidas, o antagonista desdentado que ajuda a narrar este livro possui algo de fantasmagórico, tal personagens de obras contemporâneas, como "Assim na terra", de Luiz Sérgio Metz. Porém, "Contraêxodo" também não se estanca na viagem reflexiva e onírica. Pois, ao fim, sem que queiramos entregar as surpresas da trama, há o retorno para a mais escancarada e pretensa "realidade".

Assim, Cristiano Bernardes inventa um mundo que é o menos ficcional das regionalidades letradas. Um mundo que dá pra sentir "no pelo". Não se baseia em local perdido no passado, nem em promessa de futuro. Faz pulsar o sangue, enquanto nos embrenhamos em páginas escritas de forma esperta, generosa e apaixonada. Uma aventura Porto Alegre adentro, coração afora.

Contraêxodo (ou, quando deus arranca os dentes...)
Cristiano Bernardes
Prêmio Dalcídio Jurandir 2015 - Fundação Cultural do Pará
160 páginas

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