Emoção a preço módico no Porto Alegre Jazz Festival

Alegre Corrêa voltou a tocar com grupo na capital gaúcha
Janeiro em Porto Alegre. De dentro da camioneta, costeleta grisalha, jeans com etiqueta e camiseta de uma turnê europeia de algum esteta, deixa pra trás o bloco carnavalesco que divertia na Cidade Baixa uma galera suada e desafinada. No meio da quebrada, outro de barba propositadamente desleixada, canetas afinadas, vestido florido, parava de pular um pouco para reprovar no Whattsapp a gurizada que convidava pra passar a noite no ar condicionada do festival de jazz. Cada qual cheio de razão e de rima na escolha da música e do programa social, postulando para si a cultura mais legítima.

Calor e frio, confusão e organização, a divisão entre baixa e alta cultura já não é tão binária assim. Complexificando, há entusiastas populistas e hedonistas da dita baixa. Por outro lado, acrescem-se partidários da humanização e da edificação por meio da alta, para além do nariz torcido.

Era a segunda noite do 3º Porto Alegre Jazz Festival, o centro de eventos do shopping estava lotado. Era muita gente, mas não se pode negligenciar sua especificidade. Era uma amostra micro da cidade. Nem todos poderiam estar no recinto, por diversos motivos: financeiro, sapiente ou de interesse. Não só o preconceito, também as desigualdades sociais acabam mapeando os gostos musicais locais. Mas a música, sendo emoção, faz parte da vida de todos.

Quem vai a um evento musical, consciente ou inconscientemente, sujeita-se a inúmeros tipos de emoções passíveis de serem acionadas. A nostalgia, por exemplo, quando alguém da plateia assistia ao compositor, arranjador e guitarrista Alegre Corrêa revisitar temas como “Rio Azul”, gravado no disco Raízes em 2000. Ou quando convidou a flautista e cantora Denise Fontoura, parceira na série de shows que realizou no Rio Grande do Sul no final dos anos 1990. Este tipo de gatilho emotivo está em alta no circuito de shows mundial e nacional. Há bandas revisitando antigos álbuns para proporcionar esse prazer para a plateia mais fiel.

Agora, uma emoção que anda em baixa, principalmente no showbusiness, é a da surpresa. Não no POA Jazz. Conforme comentou o crítico musical Zuza Homem de Mello em coletiva à imprensa no primeiro dia de evento, com o avançar dos anos, o público do festival já começa a participar baseado na confiança na curadoria de Carlos Badia. Ou seja, compra o ingresso e vai assistir sem conhecimento prévio das atrações, só para curtir o prazer de se surpreender com talentos novos e de lugares distantes.

Leia aqui sobre a primeira noite do evento:
Apoteose da música instrumental brasileira no Porto Alegre Jazz Festival

Kula Jazz fez show empolgante
O grupo porto-alegrense Kula Jazz, que abriu a noite daquele sábado, o mais “jovem” desta edição, contagiou a plateia com sua enérgica presença de palco e muita improvisação. Para um público que provavelmente, na média, buscava introspecção, contemplação e autorrealização através da arte, a performance da gurizada pode ter oferecido um componente inesperado. Tocaram composições próprias e standards de nomes como John Coltrane, provocando ao final um caloroso pedido de bis.

Já na apresentação do guitarrista Júlio Herrlein, muito bem programada, baseada no disco que gravou em 1996 com quarteto, incluindo um tema de Catarina Domenici, o fator surpresa ficou por conta da estreia de uma peça que compôs especialmente para o festival.  Esse era o espírito.

A cada intervalo, dividiam-se impressões de estupefação entre os amigos, ou apenas conhecidos na fila do bar do festival. Boa parte destas trocas evocavam adjetivações como “que lindo” e suas variáveis, que podiam ser rebuscadas (“que fraseado suave”, “que timbre límpido”, etc.). Mas era só um costume de recorrer à beleza como juízo estético. Na verdade, queríamos expressar muito mais que boniteza naquilo que estávamos sentindo e compartilhando entre músicos e plateia.Talvez a mais instigante, incompreensível e indefinível fosse a emoção de estar junto, o compartilhar aquele sentimento particular de maravilhamento estético durante a apreciação dos shows, com centenas de outras pessoas na plateia.

Naquela noite, também se viu o afeto vincular-se com a política. O compositor Alegre Corrêa prestou homenagem a Pepe Mujica com uma milonga que gravou em seu álbum mais recente, Gondwana (2015). Justificou ser fruto de sua sensibilização com as atitudes do ex-presidente uruguaio. Boa parte dos presentes, vivendo um momento de reviravolta e incerteza democráticas, aplaudiu com entusiasmo.

Durante uma das falas no palco, Alegre Corrêa induziu pensar no instante: não interessa o passado nem o futuro, “isso é blá blá blá”. Argumentou que em música só existe o agora, o momento. Sua percepção vai na contramão da cultura como algo cultivado, alinha-se com o entendimento da cultura e da música como algo vivido. Assim, não tão importante é a biblioteca particular que adorna a casa, quanto a sucessão de leituras e experiências que levam a diferentes conexões. Trata-se de sensibilidade humana comum.

Lá na primeira parte do show, quando o artista entoou, com um toque percussivo no violão, uma canção sobre pescador, alguns podem ter surpreendido-se com a performance individual de uma atração que aparecia no programa da noite ao lado de uma dezena de músicos. Os que desconheciam Clariô (Alegre Corrêa/Raul Boeira), podem haver gozado de satisfação ao seu desejo de incorporar novas experiências em suas vidas. Já um que outro que àquela altura era conhecedor da obra de Alegre, não teria saído perdendo nos prazeres da noite, pois tivera oportunidade de ativar sua consciência de continuidade e desenvolvimento da vida, observando a trajetória do artista naquele momento posto em perspectiva, paralelo a sua vida íntima como ouvinte. Quando foi a primeira vez que ouviu a canção? De lá pra cá, o que aconteceu? Como é a sensação de evocar tudo isso por via sonora, ativando a memória? Gozo total.

Alegre Corrêa falou ao final da primeira música que percebia a energia da plateia (importante notar que ele não estava tocando no calor de um bloco de carnaval na Cidade Baixa). Assim, inverteu a expectativa. Ao invés de pronunciar a frase clichê “espero que vocês gostem”,  afirmou que ele e o seu grupo iriam gostar muito de tocar naquela noite naquele lugar com o público presente: “com vocês”. A seguir, convidou Gabriel Grossi, que improvisou na harmônica inúmeras e inesperadas vozes, que poucos devem ter ouvido sair daquele instrumento daquela forma até então. Estupefação.

Em meio à heterogeneidade da plateia, o ingresso de 80 reais, para alguns, prometia valores agregados de status social. Para outros, inconscientemente, na linha do britânico David Hesmondhalgh, “a esperança de transcender a mesquinhez das transações humanas cotidianas” (Why Music Matters, 2013). Para Alegre Corrêa, uma frase que se destaca maliciosamente do contexto: “não importam as notas”.

Júlio Herrlein e Edu Saffi

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