O belo sem sotaque – resenha do filme Real Beleza de Jorge Furtado


*contém spoilers

O que é o cinema senão ilusão? No filme “Real Beleza”, que estreia nesta quinta-feira em todo país, o diretor Jorge Furtado apega-se a esta essência e brinca com o espectador. Logo no início, em lugar neutro, o personagem em crise, deprimido, trabalha com dificuldade em mais um ensaio fotográfico. A modelo, com “pinta de rodada”, reclama e desmerece o fotógrafo, que lhe dá um tapa. Em um ataque de fúria, a bela joga longe um pote de doce e acerta o quadro de uma pintura antiga que servia de cenário. Evoca-se um clima meio Almodóvar. Mas logo depois há uma quebra. O drama explosivo das primeiras cenas vai abrindo lugar à paisagem interiorana da serra gaúcha e à inocência de suas aspirantes a modelo, em poses e frases contidas sob os flashes. O fotógrafo João,  interpretado por Vladimir Brichta, passa a buscar uma nova beleza para revelar ao mundo.

Furtado escreveu sobre um tema filosófico, o belo, contextualizando-o na moda e na arte. Para colocá-lo em cena, dialogou tanto com o cinema de autor quanto com o mercado. É evidente que para o segundo, valeu-se da linguagem novelesca brasileira. Só os atores globais já remetem diretamente a isso. O sotaque neutro também. E nada disso é novidade na filmografia do autor de “Meu Tio Matou um Cara” (2004) e “Saneamento Básico” (2007). Poderíamos aqui ficar lamentando a falta de acento regional nos diálogos, ou julgar feiosos os artifícios mercadológicos para fazer cinema no Brasil. Vou preferir saudar as artimanhas e soluções do campo da arte, as quais Jorge Furtado escolheu para realizar seu primeiro drama em longa-metragem.

Sem dúvida, quando se refere ao cânone artístico, seja literário ou cinematográfico, o diretor enriquece a trama. Há citações do poeta Fernando Pessoa ao fotógrafo Cartier-Bresson. A intertextualidade é uma forte característica deste novo filme. O encontro entre João e a mãe da modelo escolhida, interpretada por Adriana Esteves, lembra “As Pontes de Madison” (1992), ou o romance de Lady Chatterley, escrito por D.H. Lawrence (1928) e adaptado diversas vezes para a telona. A semelhança com o enredo deste último justifica-se na história de um casal que vive isolado no interior, sendo que a mulher se dedica ao marido debilitado por uma deficiência e dedicado à literatura. Então acontece o triângulo amoroso, quando o forasteiro aparece na casa (seu objetivo inicial era conseguir permissão do casal e levar sua filha para o mundo da moda). Neste desenlace, quanto à forma, o recurso do zoom nos diálogos entre os novos amantes colabora para um clima de flerte, com ar retrô. Portanto, haveria aqui um distanciamento do fazer industrial, considerando que este recurso estaria fora de moda no cinemão?

Outra cena que vale a pena ser assistida e comentada, talvez seja a mais comovente. A mais bela? Na primeira aparição do personagem de Francisco Cuoco, Pedro, não havia indícios de que ele era cego. Apenas, de que era rígido e conservador. Ele saúda o fotógrafo de dentro de sua biblioteca e desce as escadas com cuidado, mas com um sorriso amigável, encantador, que desconstrói a imagem que havíamos criado a priori sobre ele, a partir das pistas do roteiro na fala dos outros personagens. É uma cena ótima. Na sequência, seus olhos esbranquiçados turvam e ele transparece o lado mau que se prenunciava. A informação oculta da cegueira, talvez seja essencial para o resultado belo na fruição do espectador.

Esses truques de ilusão, que criam uma expectativa frustrada na sequência, repetem-se na cena em que Pedro pede para que João leve sua mulher embora para São Paulo, assim poderia aproveitar as investidas românticas da mulher do alfaiate. Toda dramaturgia sofreria uma reviravolta, caso não fosse uma piada literária. O velho homem estava apenas se divertindo, citando Decameron.

Quanto ao tema central do longa-metragem, Furtado também é bem-sucedido ao mostrar em imagem a “real” beleza da modelo escolhida. Vivemos um mundo de inúmeros apelos visuais, em que o belo ou se pasteuriza ou se relativiza. Em comparação às outras meninas que vão desfilando na tela, Maria, interpretada por Vitória Strada, chama atenção quando aparece. Não porque as outras não eram bonitas, mas porque havia algo em seu sorriso, nos seus traços, no seu olhar diferente. Talvez a prova de que ainda é possível encontrar em algum lugar o sublime. E provocar este resultado no espectador é um mérito do diretor, que começou com a escolha acertada da atriz.

Com uma linguagem que pouco ou nada idealiza as paisagens e as modelos, o filme contém uma cena de close do rosto de Maria, enquanto se arruma para ser fotografada. Percebe-se um cílio pousado em sua bochecha (descuido só perdoável para o padrão da indústria da moda pela existência do Photoshop). Em “Real Beleza”, o cílio caído não é desleixo, mas recurso de aproximação com a realidade. (cinema não era ilusão?)

Mais próximo da realidade também é o desfecho do enredo. O mocinho não fica com a mocinha e nem elimina o bandido (que de mau não tem muito). O fotógrafo, que iniciou deprimido, ao final responde a seu antagonista se está feliz com um “sim” que não demonstra convicção. Será por que ele não levaria embora a nova amante? Ou por que a felicidade não se resolve, mas faz parte de um processo que ali estava inclusive se esgotando? Talvez durante a busca, ele estivesse.

Temas latentes, contemporâneos, dicotômicos, como metrópole/interior e aventura/romance, permeiam o filme. Mesmo assim, não há moral da história. Quando no final aparece a foto da menina em meio aos anúncios luminosos da Times Square, não há virada dramática, ou alguma sacada de mensagem. Apenas cristaliza-se o caminho indicado desde a fala da ainda candidata a modelo de buscar viajar, sair do local onde nasceu e cresceu. Já para o pai dela, poderia significar sua obra mais bela, que ele não pode ver, exposta ao mundo. Para nós espectadores, envolvidos na ilusão do filme, a certeza de que ali havia realmente beleza?

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