Festivais nativistas servem pra quê?

"eu canto e brota no peito o livre canto do pago/ sou pássaro procurado/ não pelo encanto que tenho, mas pelo canto que trago" Canto Livre (Colmar Duarte/ Armando Vasques), XI Califórnia da Canção Nativa
Oba, o debate se acendeu novamente! Foi com entusiasmo que li no último sábado a coluna do jornalista Juarez Fonseca em Zero Hora sobre a queda de qualidade musical nos festivais do Rio Grande do Sul. Mais loco de faceiro fiquei ao ser consultado pela reportagem de ZH para repercutir a peleia que incendiou as redes sociais. Esta nova matéria, assinada por Alexandre Lucchese, foi publicada hoje. (Blogueiros também podem ter voz na grande mídia! O quê que acharam?)

Leia aqui os dois textos publicados em ZH:
Do Juarez Fonseca: Qualidade das músicas dos festivais gaúchos nunca foi tão baixa
O que tem pitaco de blogueiro: Regionalistas debatem qualidade musical dos festivais

Bueno, por isso não vamos deixar a chama morrer. Visto que a página de um jornal é um espaço nobre e imprescindível para a qualificação do debate de ideias, mas não dá conta da multiplicidade de versões e opiniões, seguimos pela internet alimentando o fogo. Além da pequena frase dita, destacada pelo jornalista na matéria, eu gostaria de expor mais extensamente minha reflexão sobre a questão, principalmente na interface entre arte e políticas públicas.

Talvez sejamos saudosistas dos tempos áureos do Nativismo. Não porque precisaríamos de novo nos afirmarmos gaúchos, vestindo bombacha pra tomar mate no Parque da Redenção. Já rompemos esta barreira. Mas porque ansiamos que o palco de festival volte a ser espaço de experimentação e reflexão sobre quem somos nós. E que esta busca artística volte a conquistar grande público.

Considerando que nos anos 70 e 80 fazer música regional era uma reação à mundialização da cultura, tocamos todas as fichas nos festivais. Era uma forma de resistência. Fomos colher raízes no passado para criarmos nossa arte no presente. Com o tempo, a ameaça externa, que podemos chamar genericamente de indústria cultural, imprimiu sua lógica inclusive na nossa expressão musical que era pra ser a mais genuína. Consolidou-se um mercado da música nativista. A priori, isso não é negativo. Mas vamos refletir sobre o quanto hoje ainda compomos temas regionais como resistência cultural ou apenas como adaptação a um mercado consolidado.

Por outro lado, prefeituras e governos agarraram-se em eventos deste tipo numa prática de legitimação de suas políticas. Gestores da área cultural utilizam o estereótipo gauchesco como argumento certo na aprovação de projetos desta ordem. O mérito parece incontestável. Quem acharia ilegítimas iniciativas que promovem a cultura regional? Mas, na forma que fazemos, acabamos consagrando uma identidade local única e elástica, que pasteuriza todas as diversidades regionais. Porque o conceito de cultura em nossa política é patrimonialista, não prioriza a experimentação artística, mas a reprodução da tão poderosa tradição que inventamos.

Assim, com estas lógicas institucional e mercadológica imperando na realização dos festivais, quem perdeu foi a música. Deixamos de privilegiar a criação, a arte, a cultura, para nos preocupar com os dividendos simbólicos e financeiros que estes eventos proporcionam. O resultado estético foi que, ao invés de traduzirmos à nossa maneira a “ameaça” global, acabamos nos fechando em torno de um regionalismo passadista, anacrônico.

A questão que fica é a seguinte: o público gosta de assistir aos festivais de forma passiva, consumindo uma identidade gauchesca consagrada? Ou prefere que os artistas ofereçam novas tintas, para que se possa escolher, torcer e vaiar?

Leia aqui outros textos do blog sobre festivais nativistas:

Califórnia da Canção Tradicionalista não!

Pentagrama e o espírito de grupo dos anos 70

Nico Fagundes X Sérgio Jacaré: os embates nativistas dos anos 80

Cabo não se mixa pra coroné - Califórnia da Canção Nativa volta ao mapa encilhando um petiço

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