Aposto só no monza hatch: Apanhador Só

Na infância morávamos na avenida Icaraí, atrás do Jockey Club de Porto Alegre. No entanto, por mais que os cavalos fossem bichos dóceis, os jogos de azar eram censurados à criançada. O máximo que conseguíamos fazer era pular o portão aos sábados de manhã, atravessar o hipódromo, e cortar caminho até os campos de futebol que beiravam o Guaíba. Naquele tempo, talvez por inspiração direta, uma das brincadeiras que lançávamos mão para driblar o tédio era também um jogo de apostas.

A pista que estava ao nosso alcance era a da avenida, cheia de ônibus, carroças, motos e diversos modelos de carros. Sentados nos bancos da pracinha, cada jogador escolhia um automóvel, vedadas as marcas mais populares, como gol, chevette e fusca. O apostador que somasse maior número de passagens do seu cavalo era o vizinho mais prestigiado daquela tarde, com direito a fazer bulling com os outros até cansar.

Eu tinha uma simpatia intermitente pelo perdedor Monza Hatch. Era difícil defender aquele modelo esportivo sem grife. Um nacional que não era nenhum sedan de respeito, para homens bem sucedidos; nem uma barata super estilosa e importada, para  poucos privilegiados e descolados. Contudo, o danado me garantiu uma que outra vitória apertada sobre a vizinhança.

O monza hatch era uma tentativa romântica, na qual eu insistia, mesmo após sucessivas derrotas vergonhosas, buscando uma identificação com o objeto de aposta. Mesmo que não vencesse durante uma semana inteira, eu seguia teimando. Estava convencido do seu potencial e este sentimento me imbuía de forças para manter todas as fichas naquele cavalo.

Corrida de cavalos
Lembro deste jogo no final do ano. É quando a imprensa, de forma salutar, deixa o material factual de lado e se debruça sobre a análise e a crítica. Elegem-se os melhores e mais marcantes momentos do ciclo que se encerra. Esta empreitada não é simples como um jogo de azar. Mas, principalmente na editoria de cultura, para apostar no top ten pode ser preciso certo tino de jogador.

Entre os melhores discos de 2013, por exemplo, eu colocaria todos mil réis do meu bolso em “Antes que tu conte outra”, da banda gaúcha Apanhador Só. Não tem a grife de um Vitor Ramil, nem vinha sendo aclamado pela imprensa do centro do país como um Marcelo Jeneci. Mas tem potencial. E aqui precisamos ir além da marca, aprofundando a questão da música. O que mais interessa é que o disco é excelente.

Campos da sorte e do prestígio à parte, no campo da qualidade o segundo álbum da Apanhador Só é artisticamente abundante. A trajetória da banda foi colaborando para uma crescente elaboração estética que chegou a certo amadurecimento. Eles não ficaram limitados às canções bonitinhas, nem aos arranjos meigos e performáticos com instrumentos de sucata. Quem esperava só isso deste disco decepcionou-se.

As letras e melodias inspiradas de Alexandre Kumpinski garantiram um material rico para o trabalho do grupo, que seguiu a veia experimental, sem enquadrar as canções num formato pré-definido como “a cara da banda”. Eles vão de violões bem harmonizados a efeitos de guitarras conforme a música pedir.

Antes que tu conte outra
Ironia e coragem estão presentes no fundo de cada faixa, ora expressas liricamente, ora determinando os arranjos. Esta característica destes artistas talvez nos ajude a começar a entender a geração de jovens brasileiros que foram às ruas neste ano. Estão impregnados sim do modus operandi tecnológico e urbano do século XXI, mas muito atentos aos sentidos e valores que estão sendo produzidos através.

O grupo cruzou a linha de chegada em 2013 no páreo das grandes bandas alternativas. Está traduzindo seu tempo. Eu seguiria apostando neles, mesmo que tivessem perdido numa tarde glamourosa, em que os apostadores mais experientes competiam. Meu cavalo sempre pode vir a ganhar no dia seguinte. Ou no ano.


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