Leia aqui a entrevista publicada no O Nacional

Abaixo, segue a entrevista que concedi à repórter Marina Campos em Passo Fundo.


Aqui, Cosquín! 
28.2.2009

Considerado o maior e mais importantes festival de folclore da América Latina, o Festival de Cosquín acontece no interior da Argentina e reúne espectadores de todo o planeta, entre eles o passo-fundense João Vicente Ribas, que presenciou a grande festa e agora conta todos os detalhes ao Segundo, desde a viagem a Cosquín até as impressões que ficaram após o fim do evento.

Em mais uma de suas aventuras em busca da essência da cultura gaúcha, o jornalista e mestre em História João Vicente Ribas partiu há pouco menos de um mês em uma aventura latino-americana com a missão de "desbravar o território argentino e buscar indícios sobre o ethos gaúcho das gentes que participam do 49º Festival Nacional de Folclore de Cosquín". De volta a Passo Fundo, João Vicente traz na bagagem não só as respostas para algumas de suas perguntas, mas também a mágica experiência de fazer parte do maior festival de folclore do continente, registrando a viagem em grandes fotos e relatos em forma de diário, que podem ser conferidos em seu blog, www.pampurbana.blogspot.com. Em entrevista ao Segundo, Ribas fala sobre sua aventura pessoal e também sobre a importância do evento para as tradições do sul da América.


Segundo - O que você sabia sobre o Festival de Cosquín antes da viagem? O que te motivou a ir à edição deste ano?
João Vicente Ribas - Antes de chegar à Argentina, no dia 23 de janeiro, sabia que havia naquele país alguns festivais musicais dedicados a raízes culturais que muito me chamam a atenção, por referirem-se esteticamente a ritmos e concepções gauchescas, similares às que celebramos no Rio Grande do Sul. Fomos em um grupo de oito pessoas, oriundas de Passo Fundo, Santa Maria, Porto Alegre e Camboriú. O que tínhamos afim era o gosto e o conhecimento musical sobre a canção latino-americana, além de algumas amizades. Um dos companheiros de viagem, Juares de Paula Motta, foi o responsável pela escolha do destino, pela convocação da parceria e organização da excursão.

Segundo - Diferente da maioria dos roteiros argentinos, que levam a Buenos Aires, você foi para o interior da província de Córdoba. Como foi essa viagem?
JR - Pesquisei antes de chegar à Argentina, buscando inteirar-me sobre o Festival Nacional de Folclore de Cosquín, motivo da viagem. Mas não sabia nada sobre o local em que ficaríamos instalados. Nosso roteiro não foi comprado como um pacote em uma agência de turismo. Decidimos o destino, a data e a atração principal, alugamos uma casa a 6 quilômetros do festival, e fomos. Chegando lá, descobri que a casa ficava à beira de um rio, no município de Bialet Massé. É um lugar de belezas naturais, com estrutura urbana precária, se comparado a destinos de veraneio brasileiros. Mas o contato estreito com a vida argentina, fora dos roteiros turísticos, compensa qualquer falta de conforto.

Segundo - O festival é considerado o mais importante encontro de folclore da América Latina. O que você encontrou por lá?
JR - O Festival Nacional de Folclore de Cosquín terá sua 50ª edição em 2010. Nas décadas de 1960 e 70, foi palco de projeção para grandes nomes como Atahualpa Yupanqui, Jorge Cafruni e Mercedes Sosa, ícones da música argentina e latino-americana. Na época, era um lugar para contestação política e criação da identidade nacional, durante o forte regime ditatorial. Os músicos reuniam-se até a madrugada na Confeteria Europea, trocando informações e desenvolvendo a cultura daquele país. Hoje, obviamente, o festival assumiu as características de um novo tempo, em que o palco é dotado de superprodução de som e luz, dando conta inclusive da transmissão ao vivo pela televisão pública para todo o país. Os encontros paralelos ao palco principal (peñas) continuam, mas são shows em bares, onde o público paga ingresso e pode dançar noite adentro. Uma característica que se mantém, e é saudada pela imprensa local, está na presença dos chamados músicos callejeros, artistas que afluem até Cosquín durante os dez dias de evento para se apresentar nas ruas da cidade, angariando contribuições espontâneas e transformando o lugar em uma colônia musical 24 horas, em todas as suas esquinas.

Segundo - Como define a experiência de presenciar um festival desse porte?
JR - Já havia assistido a shows em festivais nativistas no Rio Grande do Sul, rodeios e o festival de folclore de Passo Fundo. Esses eram o meu referencial comparativo, que permitiu certa surpresa em muitos pontos e `conhecimento de causa` em outros. Fiquei perplexo com a quantidade e qualidade de grupos híbridos, de projeção folclórica, que tocam música contemporânea de vanguarda. Essa é uma diferença gritante entre o gauchismo argentino e o brasileiro. Enquanto nós tentamos desesperadamente manter intacto o que dizemos ser nossas raízes, sem interferência moderna, os hermanos fazem justamente o contrário. E o resultado é muito `saudável`, pois mantém o interesse e o envolvimento ativo das gerações na constante criação da cultura nacional.

Segundo - Qual a importância do evento para os povos sul-americanos? O que muda na sua visão a respeito desse assunto ao retornar a Passo Fundo?
JR - A grande importância que percebi no Festival de Cosquín está no entendimento e o uso que os argentinos fazem do folclore. Para eles, a projeção folclórica, o tradicional e a música pop ocupam harmonicamente o mesmo palco. Não há purismos em um espaço em que um dos objetivos evidentes é a busca da identidade nacional. É exaustivo o discurso dos apresentadores em prol das tintas que significam seu país. O bonito é ver que essas tintas são tradicionais, são vanguardistas e são jovens também. Artistas como Chango Spasiuk, Trio MJC, Soledad, Rally Barrionuevo, Joel Tortul, Fulanas Trio, entre outros, provam que a música folclórica passa de geração para geração, de forma que cada uma delas interfere e interpreta valores comuns, de maneira particular. O resultado é surpreendente e atrai milhares de pessoas de todas as idades. Outra contribuição importante do festival é ser um ambiente totalmente musical. As pessoas vão a Cosquín para ouvir música! Convenhamos, esse fato é raro nos dias de hoje, ao menos no Brasil, em que o público vai a shows de música com estranhos objetivos, tais como cantar o sucesso das rádios, ver de perto um artista de televisão, ser fotografado ao lado do ídolo, socializar-se na plateia, dançar, ou ser notado como pessoa culta e apreciadora de música. A maioria das pessoas não quer ouvir música, por mais estranho que isso possa parecer. Já, nesse festival, percebi que o interesse pela simples audição ainda existe, mesmo que em algum lugar remoto do planeta.

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