Porque, se tivesse banana, entupiria o ralo

Yes, nós temos um ralo! Os da semiologia e os da psicologia devem ter se deliciado com este filme. O Cheiro do Ralo (Heitor Dhalia, 2006) é um buraco donde emergem incontáveis signos para se refletir, sobre os frutos da conjunção entre natureza humana e cultura brasileira. O cotidiano de uma loja de objetos usados é o enredo desta obra cinematográfica de vanguarda.

Confesso que não vi com bons olhos sua campanha de lançamento, que parecia querer me convencer de que se tratava de um filme cult, mesmo antes de eu assisti-lo. Não fui ao cinema para vê-lo. Mas juro que me despi de preconceitos e desferi um play no DVD, de coração aberto. Então percebi como as coisas foram postas em cena com esmero e perfeccionismo. Direção de arte fantástica! Fora as outras funções e performances, já premiadas por aí.
A grande sacada do filme, a meu ver, é que carrega ícones representativos da nossa cultura, mas sem jogar na cara. Ao mesmo tempo, faz pensar sobre ela, desprovido de velhas lógicas classistas. Explico este ponto de vista, por partes:

Isto é Brasil
O que é mais Brasil do que: café, empregada doméstica, violência barata, preconceito social e música do caminhão de gás? Tudo isto tem no filme. Só não tem banana. Porque a banana é a mãe dos clichês. E estes ícones supracitados compõem as cenas de forma natural, quase imperceptíveis dentro da trama. Pode parecer um contra-senso, mas as palmeiras pintadas nas paredes das ruas, por onde o protagonista passa, são menos artificiais do que se a personagem estivesse na praia tomando água de côco.

E da mesma forma que a palmeira faz sombra na parede, a cada cena, apresentam-se diferentes faces do país, em frente ao negociante Lourenço (Selton Mello). Lembra as confissões de presidiários e de analfabetos, em Carandiru (Hector Babenco, 2002) e Central do Brasil (Walter Salles, 1998), respectivamente. Será essa uma linguagem cinematográfica marcadamente brasileira? Colocar muitos personagens para falar em frente à câmera? Mesmo utilizando-se de um recurso estilístico recorrente, há diferenças determinantes entre O Cheiro do Ralo e seus predecessores, pois nele os depoimentos dos personagens, ao mesmo tempo em que desfilam diversos sotaques, não são de excluídos tendo voz, como nos anteriores. São indivíduos que não representam classe, nem mesmo condição social comum. São pessoas com interesses particulares, que estão falando em frente ao comprador de forma a tentar convencê-lo a pagar bem por seus pertences. Portanto não são vítimas do social, são atores! Este é o posicionamento original do filme, perante o entendimento de nossa cultura contemporânea. De lambuja, escancara um egoísmo típico tupiniquim.

“A vida é dura”
O Cheiro do Ralo não é sobre classes, nem sobre posições sociais estanques. Por mais que o protagonista tenha sua posição de dono do estabelecimento, ele é vulnerável. Pagou 400 por um olho de vidro e tudo que tinha em caixa por um boquete. Mas costuma pagar mixaria por artigos valiosos, como um violino. Sua ética não está no âmbito do grupo, mas em suas aspirações individuais. Ele se preocupa muito com o cheiro do ambiente, porque pode ser associado a ele, como o vendedor do violino sentencia em uma cena.

A Lourenço pouco importam os objetos que vai revender por bom preço. Ele valoriza as coisas que servem para alimentar suas psicoses, como a “coisificação” do sexo e a obsessão pelo pai frankenstein. Afinal, em importante parte do enredo, ele não queria casar com a garçonete, queria “apenas” comprar sua bunda. Quando realmente consegue satisfazer seu desejo, é possível perceber o quanto é infantil a sua fixação pelo traseiro alheio, pois ele o beija sem malícia e cai aos prantos agarrando-o como um travesseiro. Aí entra em cena mais uma vez o roteiro primoroso, narrando: “Mais uma coisa a bunda se torna: um tudo, como as coisas que eu tranco na sala ao lado”. Tal conclusão reforça muito nossas metáforas contemporâneas sobre o Brasil. Não acha?

O negócio fede
O negócio de objetos usados fede. Outra metáfora, comum nas análises sobre corrupção política no Brasil, aplica-se ali ao caso particular e humano de um indivíduo. Mas a moral da história não é generalista e nem reducionista do social. Vemos no filme condições particulares, que transitam intrincadas ao meio.

Ora o protagonista “gosta da cara de um”, ora se distancia de outro e sempre se empenha em poupar sofrimento. (- Um analista por favor!)

Outro exemplo: em determinado momento da trama, a bela e certeira coadjuvante, a garçonete, sente-se subjugada e frustrada com a relação de compra de sua bunda. Mas a relação de emprego posterior, mesmo sendo exploratória, lhe satisfaz incondicionalmente. Talvez ela valorize sua bunda, como fonte de dignidade, mais que sua inteligência e trabalho... (- Fui muito longe, não?)


Roteiro da porra!
Fiquei otimista com este filme. Suspeito que estejamos superando dois fatores que contaminam o bom cinema brasileiro: o revanchismo ralo e o cheiro de banana.
A cena final é primorosa. Lourenço é morto pelo grande vilão de Tropa de Elite (José Padilha, 2007), na verdade, uma garota de classe média viciada. Ele rasteja até o ralo. Aparece rapidamente a bunda em foco. Depois a entrada da loja. O texto coroa o desfecho: “Então ninguém entra e ninguém sai”. Wonderful! More than a fruit bowl hat.

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