Faça um estágio no interior

Disse o compositor Otávio Segala, nascido em Santa Maria e residente em Porto Alegre há longínquos anos: “a gurizada da capital tinha que fazer um estágio no interior”. Situando a frase em um contexto alienígena para o emepebista, frente à multiplicação de roqueiros e regueiros na capital, percebe-se um conflito pertinente à identificação cultural na contemporaneidade e aos estereótipos de provincianismo e cosmopolitismo.

Como ele, a maioria das gerações do século XX costumou sair das dispersas cidades do Rio Grande do Sul com certa idade e deslocar-se até a capital para posterior retorno ou nunca mais voltar. Transição que transforma a percepção de mundo de cada um. Mas o diagnóstico do Dr. Segala refere-se à gurizada que nunca experimentou a vida longe da metrópole. E eu acrescentaria aqui o inverso também, ou seja, quem nunca saiu dos confins interioranos.

Para lucrar como faz a indústria farmacêutica, vou propor uma sociedade com Otávio Segala. Ele receita as turnês e eu administro os estágios. O problema será convencer porto-alegrenses melecas a passarem um tempo longe de suas turminhas super unidas e profundamente identificadas com algo importado. Já os malditos interioranos, será barbada levar fazerem turismo no shopping e serem assaltados na capital, para na volta acharem-se superiores aos iguais. – mas que anti-propaganda!

Outro compositor que nos ajuda a rever nossa dimensão de mundo é o amigo Raul Boeira, que de sua casa interiorana em Passo Fundo comunica-se com artistas de todo o Brasil e ainda da Europa. Também compõe música para seu fiel ouvinte, o cãozinho Paco, de sensibilidade artística bem maior que a massa que lota estádios para ver shows da Madonna. Raul é porto-alegrense, mas foi morando no interior que seu mundo ganhou proporções universais - não excluindo a possibilidade de que o contrário pudesse acontecer.

Considerando que hoje o interior tem acesso às mesmas tecnologias de comunicação que a metrópole, não há muita diferença num patamar midiático. Já se foi o tempo em que celular não “pegava” direito fora da cidade, sem falar na maravilha da TV a cabo. Então as diferenças ficaram para o plano “real” mesmo, da carne e osso, que ao meu ver é o mais interessante.

Não cabe discutir se os compositores de MPB são melhores ou piores que os roqueiros e regueiros, sejam da capital ou do interior. A questão aqui não é estética, nem de gosto musical, mas de referências culturais. O provincianismo pode estar latente na capital, enquanto que o cosmopolita pode estar em uma casa de cerca branca com um cachorro e um computador.

A geração dos vinte e poucos anos de hoje lembra-se da casa dos avós, onde havia no mínimo um cãozinho e alguma hortaliça, perto de algum lugar onde aconteceu a história do Rio Grande do Sul. Já as gerações mais novas poderão não recordar bem em que andar ficava o apartamento dos entes próximos, ao mesmo tempo em que a praça dos três poderes em Porto Alegre poderá significar apenas uma paisagem rotineira.

Conclusão precipitada: dada a relação entre o número de casas de avós e o de edifícios, talvez se possa medir o grau de identificação que um lugar desperta. - seguindo essa lógica, o bairro de Copacabana no Rio de Janeiro seria um objeto à parte para análise. Mas falemos do sul do Brasil...

Em Passo Fundo, desde já nos orgulhamos do título Capital Nacional da Literatura, apenas pelo grau cosmopolita a que ele remete. Já éramos a Capital do Planalto Médio, de importância regional. Agora um nome nacional.

A propósito, o Livro do Mês na Capital Nacional da Literatura é “Quatro Negros” de Luis Augusto Fischer. Não por acaso iniciei esse artigo. Pois li essa história de uma família negra que se desloca para a capital, deixando o mundo interiorano que o autor faz questão de afirmar que poderia ser em qualquer lugar do Rio Grande do Sul.

Inicialmente, Fischer narra sua primeira impressão do interior, onde as tônicas são despretensão, despreocupação e desleixo, beirando o retrógrado. Mas em seguida, contando as histórias de cada personagem, ele começa a reconhecer e revelar os valores de cada um, aprofundando sua percepção. Digamos que esse tenha sido o estágio no interior cumprido pelo escritor, nascido na cosmopolita Novo Hamburgo.

No final do livro e da experiência, ele reescreve a “cena” do ônibus que parte com a família rumo à capital, protegida pela inocência e determinação de uma das filhas meninas. Nessa segunda vez, ele valoriza mais um detalhe da história: no campo ao lado, a família vê pela janela um velho montado em um cavalo, sereno. Confiro atenção especial para o estado psicológico do velho: sereno. Eis o ponto chave, que passou despercebido por Fischer no início. Eis um elemento determinante na relação entre interior e capital. Eu apostaria que o que importa não é o tamanho do mundo de cada um, mas se ele cabe em seu entendimento, suficientemente para se ter serenidade.

Serviu o chapéu? Não? Inscreva-se já para o estágio!


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Bobby, vira-latas praiano

“Cara, aqui é afudê! Só me mudaria se fosse pra Miami, tá ligado?”
Rex, cão-de-guarda da capital

“Na real, eu tô de saco cheio desse buraco! Tô só esperando a dona conseguir uns trôco pra agente se mudá pra Camboriú.”
Lili, bichinho de estimação interiorana

Conclusão e manchete sensacionalista:
“Cães gaúchos preferem morar na praia”

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