Palco livre para músicas de ponta-cabeça

La Calenda Beat do Uruguai abriu a programação do Unimúsica 2018 - Témpano América

Não houve chuva forte ou enfraquecimento dos espaços culturais na imprensa que atrapalhassem o encontro do público com a experiência musical proporcionada por um consistente trabalho de curadoria. O salão de atos da UFRGS esteve lotado (como sempre) na noite da última sexta-feira (20) para ver o início da programação do Unimúsica 2018. Neste ano, foram escaladas atrações de um continente posto de ponta-cabeça, invertendo a importância dos hemisférios norte e sul - bem como inspira a obra icônica de Joaquín Torres García.

A primeira atração veio de Montevidéu. O grupo La Calenda Beat mostrou uma sonoridade de fusão do candombe, ritmo original da diáspora africana naquele país, com outros gêneros. Pode ser rotulado de candombe beat, aquele que além dos tambores capricha na levada de baixo e bateria, ou de candombe fusión. Remonta ao trabalho de pioneiros como Romeo Gavioli, Manolo Guardia e Daniel Lencina (anos 1950 e 60), Mike Dogliotti (anos 1970) e contemporâneos como Ruben Rada e Hugo Fattoruso. Na formação da banda de Montevidéu, os instrumentos standards do jazz (piano, baixo, saxofone e bateria) e os tambores tradicionais do candombe (piano, chico e repique).

O show apresentado em Porto Alegre foi baseado em canções dos dois discos lançados pelo grupo, com vocais divididos entre o vocalista de influência cubana Dario Piriz e o bandleader Liber Galloso, entremeadas com temas instrumentais e improvisos, como na empolgante faixa “Serrana” do álbum mais recente, “Beatificando”. E foi improvisando que o grupo proporcionou um dos momentos mais emocionantes da noite, quando ficaram no palco apenas os três tambores.

O saxofonista Liber Galloso, que também faz rap, reafirmou diversas vezes o desejo de irmandade entre latino-americanos. Em uma delas, observou que, apesar da língua diferente, somos irmãos. Afinal, o uruguaio não precisou falar em português para que entendêssemos. Reconhecimento mútuo, sem falar a mesma língua. Afinal, não é isso que chamam de diversidade?

Assim se pode ser latino-americano no século 21. Pois o desejo de reunir traços similares para edificarmos uma identidade unificada naufragou com os nacionalismos do passado. Em tempos de migrações, é evidente em manifestações culturais, principalmente na música, a reinvenção da latinidade como projeto de afirmação da diferença aliada à resistência. É preciso buscar autonomia para circular e criar em meio a tantos fatores externos globais condicionantes. O fator local persiste, ainda que recolocado nos fluxos de tempo e espaço da modernidade.

Assim, o “Unimúsica 2018 - Témpano América” veio com tudo. Em 37 anos de existência, o festival já enfrentou conjunturas mais e menos propícias. Sempre manteve um palco onde a música se expressa de forma livre e com pertinência espaço-temporal. Hoje, se nossa sensibilidade tem abarcado a latinidade no turismo e aos poucos avança mais na música, que não paremos por aí. A curadoria do festival teve a perspicácia de notar o movimento e de incorporá-lo. Para retomar, reler e ressignificar uma antiga e bonita utopia chamada América Latina.


O Unimúsica terá até o final do ano atrações do Peru, Argentina, Venezuela, Colômbia, Chile e Brasil. A curadoria está ao cargo de Benjamim Taubkin, Demétrio Xavier, Leonardo Croatto e Lígia Petrucci. Confira a programação completa aqui no link.

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