Uma cobertura imparcial do festival El Mapa de Todos 2017


Convidamos dois comentaristas para termos dois lados na cobertura do festival El Mapa de Todos, em Porto Alegre (RS). Com uma visão mais tradicionalista, a galinha balofa, batizada outrora como muslo de pollo, destacou o fato de a plateia ter atendido ao apelo da organização e não ter subido no frágil palco do Theatro São Pedro para dançar, apesar de ter gritado #foratemer em certas ocasiões. Já o radical porco em miúdos, apelidado na vizinhança de bolonia, adorou dançar o show inteiro de Francisco, El Hombre, e viajar “de cara” ao som de Daniel Drexler.

Diante do teatro lotado na primeira noite, nossa amiga muslo ficou otimista: concordou com o organizador Fernando Rosa sobre esta 7ª edição representar a consolidação do festival. Mas bolonia desconfia que, mesmo com o voto de confiança e o empenho do público, agora fudeu tudo no Brasil. No entanto, naquela noite, nada demoveria a vibração de torcida de futebol. Jogo ganho, com certeza.

Este artigo foi publicado no site de música brasileira A Mulher do Piolho (veja aqui).

Na noite da intensidade performática, um grupo instrumental não tocaria sentado. As cadeiras antigas do teatro sesquicentenário acabaram decorando o palco durante o show do Yangos. Exceção para alguns acordes do tecladista César Casara e para momentos em que o percussionista Cristiano Neto Klein deixou o bombo leguero para sentar no cajon. Apesar de não ter se entusiasmado com os pulos e headbangings, muslo considerou muito corretos todos os arranjos e o desempenho do grupo Yangos. Tocaram   gêneros platinos, como milonga e chamamé, com pulso firme de quem leva os soldados à guerra, enquanto a gaita de Rafael Scopel capitaneava as melodias. Por outro lado, bolonia gostou da atitude de raiz dos acordes "de gavetão", que levavam golpes da mão direita cheia de Tomás Savaris, na maior parte das músicas. Nosso porquinho também destaca a performance do tecladista, atrás do instrumento estampado com um adesivo da wipala, bandeira que representa a união dos povos indígenas latino-americanos, tocou em pé e fez caras e bocas, emolduradas por costeletas de rock progressivo.

O grupo Yangos, de Caxias do Sul RS

A maior atração do festival, para o gosto de bolonia, a banda de Campinas, meio brasileira e meio mexicana, Francisco, El Hombre, elevou a temperatura no teatro. Energia, diversão e hedonismo, propulsionaram o grupo e uma legião de fãs. Muslo observa que essa mesma tônica emocional consagrou o show da banda Onda Vaga em 2015 como um dos mais emblemáticos da história do El Mapa de Todos, “apesar” da gurizada ter invadido o palco do salão de atos da Ufrgs naquela ocasião.

Leia abaixo sobre a 6ª edição do festival:
Para integrar todo o mapa, oferecemos baile, atitude e leveza

Como as edições são temáticas e neste ano a homenageada é a chilena Violeta Parra, Francisco, El Hombre dedicou a ela “Arriba quemando el sol”, canção de denúncia sobre as condições de vida de trabalhadores mineiros no Chile, o que não agradou muito a galinha. Na sequência, emendaram “Não vou descansar”, música original do grupo que na versão ao vivo teve o verso “vou até o sol raiar” trocado por “vou até o Temer derrubar”. Para o porco, os gritos de #foratemer que eclodiram da plateia após esta canção foram um momento catártico que só a arte proporciona, para dar vasão às frustrações e insatisfações. O mesmo teria ocorrido quando cantou-se “Bolso Nada”, com o verso “esse cara escroto”, um recado para um presidenciável. Mas na visão da colega galinácea, o grupo teria sido responsável por instigar metade da plateia, de tendências esquerdistas.

Mateo Piracés-Ugarte, da banda Francisco, El Hombre
Já que nos desempenhos individuais da banda Francisco, El Hombre os bichos comentaristas concordam, segue um pingue-pongue:

muslo de pollo (a galinha balofa) - o guitarrista Andrei Martinez Kozyreff é econômico e preciso, improvisa bem e sabe dosar os timbres característicos da cumbia com as distorções do rock.
bolonia (o porco em miúdos) - a cantora Juliana Strassacapa encara o público como quem esconde nada, sempre sorrindo, arrasa.
muslo - O baterista, centro da banda, Sebastián Piracés-Ugarte, canta bem e conduz as levadas às vezes como se estivesse brincando, noutras como se fosse o último momento de sua vida, apoiado pelo baixista Rafael Gomes.
bolonia - o performático pomba-gira, Mateo Piracés-Ugarte, divide seus números de dança com programações, vocais e violões. É o dínamo do grupo, catalisa a energia e rege as explosões de aplausos e gritos da plateia.

Fim de noite, a galinha foi para casa tomar um banho. O porco aceitou o convite público de Francisco, El Hombre e foi pra Cidade Baixa tomar uma ceva. No dia seguinte, ambos estariam sentadinhos na plateia para assistir a shows bem diversos daqueles.

A cancionista Carmen Correa, que muslo concorda ser uma revelação local, abriu a segunda noite do 7º El Mapa de Todos. Seu vestido de chita, maquiagem e brincos era-de-aquários conquistaram logo à primeira vista o bolonia. Mas o suíno ficou encucado com tantas pausas para o violonista multi-efeitos Gabriel Sá afinar seu instrumento. Pois queria curtir aquela buena onda em fluxo contínuo. Em contraponto, muslo achou profissional o cuidado extremo, principalmente porque o músico gravava trechos e imediatamente tocava-os em looping. Qualquer frequência fora do espectro ali seria um desastre.

Carmen Correa, de São Leopoldo RS
Durante o show, muslo interrompeu o transe de bolonia para cochichar um clichê, comparando o casal no palco com a bela e a fera. O porco fez que não ouviu e pensou que o guri daria um bom caldo. Mas pegou aquela comparação para desenvolver um pensamento sobre a estética da dupla. Faria sentido dizer que Gabriel somava ruídos, batidas e grunhidos à delicadeza, languidez e timbre límpido de Carmen, elaborando certa complementaridade.

Aquele segundo dia era um desfile de canções. Todo mundo queria comentar com os amigos qual era a sua preferida. Muslo saiu cantarolando “não cheguei sozinha não, viu”, refrão de “Olha bem”, baião que encerrou o show em alto astral, com arranjo bem construído. Para bolonia, sem dúvida, destacava-se no repertório de Carmen Correa a música “Branquela”, não só porque é uma das que mais evidenciam a beleza do timbre da cantora como por causa da letra dor-de-cotovelo século 21 (conjugação de lamento com empoderamento feminino).

Após o intervalo, o uruguaio Daniel Drexler subiu ao palco do Theatro São Pedro solito no más. Logo no início, uma canção sobre diversidade cultural gravada em 2006 no álbum Vacío, “20-21”. Bolonia vibrou com o refrão: “mis raízes son del 20/ las flores son del siglo 21/ la alegria es el presente/ la esperanza es el futuro”. O tradicionalista Muslo aprovou apenas a primeira metade, mas juntou-se ao colega na vibração com as canções inéditas (Drexler está gravando um novo disco, incluindo parcerias com o compositor de Santo Antonio da Patrulha - RS, Zelito Ramos).

O uruguaio Daniel Drexler
O show do mano Drexler baseou-se em dois settings, um de guitarra e programações, stand up. Outro de banquinho e violão ao pé do ouvido. Nossos comentaristas aprovaram ambos, com predileções divergentes, claro. A galinha chama atenção para a proximidade do uruguaio com a tradição da canção brasileira, evidente no quadro acústico. Já o porco ficou mais sensibilizado sensorialmente com os arranjos contemporâneos da guitarra. Ambos concordaram sobre a pertinência e elegância das letras, valorizadas nas diferentes configurações performáticas.

E assim foram as duas primeiras noites de festival. A terceira não cobrimos, pois o contrato com nossos bichos era terceirizado e pagava só duas diárias. A galinha até se dispôs a trabalhar de graça para manter o networking. Mas o porco fez greve e acabou com nossa pretensa cobertura imparcial.

Francisco, El Hombre - síntese de integração musical, com integrantes mexicanos e brasileiros 

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