Tambo do Bando agora

Grupo colocou no ar campanha de financiamento coletivo para realização de um novo show e para reedição dos discos
O artista talvez seja o único capaz de estar à frente do seu tempo. No final do século XX, enquanto exasperava-se a dinamização das trocas culturais ao redor do globo, no que veio a ser chamado de pós-modernidade, a resposta óbvia foi a retração em torno de tradições.

A arte do Rio Grande do Sul, em correspondência ao que vinha ocorrendo na Argentina e no Uruguai, já havia inventado sua versão gauchesca moderna para guiar sua identidade. Porém, no período de prefixo pós, a simples coleção de referenciais mortos, de um passado celebrado heroico, não garantiram a criação de uma nova música localizada neste sul do mundo, consoante às vanguardas estéticas universais. Era preciso violar o cânone regional para, de maneira terna e sacana, propor a uma sociedade ativada pelos trânsitos migratórios e informacionais sua expressão mais condizente.

O Tambo do Bando não simplesmente colocou em cima do palco dos festivais nativistas teclados eletrônicos e brincos, símbolos antagônicos àquele regionalismo normativo e moralista que dominava a cena. O grupo, sim, dialogou com a contemporaneidade, fosse na abordagem temática ou no compor musical. Surtiu vaias, enquanto logrou linhas elogiosas da crítica. Não foi um estouro de público, nos moldes da indústria cultural (nem mesmo na versão regional estabelecida). Teve carreira produtiva efêmera, em torno de dez anos. Porém, fez suficiente para inocular nos caminhos regionais um atrevimento artístico que não abandona o carinho pelas “coisas daqui”.


Deve-se observar que a MPB produzida no estado também se dedicou a pensar a cultura regional, principalmente através da milonga, sem amarras ou compromissos. Mas seus expoentes não compraram a briga pela identidade gaúcha, ficando em segundo plano na indústria e na mídia. No seu lugar, prosperou no imaginário a figura campeira com seus atos de bravura e bravata, manifesta por canções de baile e festival. Maior parte dos compositores de vanguarda fugiu destes palcos de intensa disputa e luzes sobre o ser gaúcho. Já o Tambo enfrentou esse reduto, onde os “aiatolás da tradição” reivindicavam exclusividade (parafraseando Gilmar Eitelwein e Juarez Fonseca).

Acesse aqui a plataforma Traga Seu Show para participar do crowdfunding Tambo do Bando 30 anos.

Hoje, o Rio Grande do Sul vive uma cena musical herdeira de movimentos que não deixaram muito espaço para intersecções no decorrer das décadas. O rock gaúcho é quase um gênero, mais influenciado pelos ingleses do que qualquer outra marca mais próxima. O nativismo segue como mercado para a manutenção de uma tradição, promovendo inúmeros festivais. A MPB de Bebeto Alves, Vitor Ramil e companhia, intensifica o intercâmbio com os vizinhos uruguaios e argentinos. Vale apostar que sem rock, nativismo e MPB não haveria Tambo do Bando. Ao mesmo tempo, o grupo não se restringe a nenhum deles. 30 anos depois, ainda representa o flutuar entre todos, sem apego a bandeiras. Mostra que também podemos ter uma arte diversa em suas filiações estéticas.

Mesmo após a morte do letrista Luiz Sérgio Jacaré Metz, a chama do Tambo tem se mantido acesa em shows esporádicos e na memória de músicos e público que viveram aqueles anos de debate intenso em torno do querer ser gaúcho (final dos anos 1980, principalmente). Esta proposta de financiamento coletivo visa retornar à baila seus fonogramas, proporcionando acesso às novas gerações, que poderão inclusive presenciar a nova versão do grupo, no espetáculo preparado especialmente para esta ocasião.

Leia mais sobre o Tambo do Bando:
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O tempo é de superação dos nacionalismos/regionalismos em nome de culturas híbridas, criadas a partir da vida nas metrópoles ou nos rincões mais profundos, todos sujeitos de particularidades, ainda que sob ascendência global. Vide as palavras publicadas pelo escritor:

“A arte transcende a sabedoria. A arte é a alma à frente. A mim representa que ela foge dos blocos de anotações e dos manuais. A mim a arte está, também, viajando, no favo das bombachas dos desesperados que batem à porta das nações próximas (até o mais profundo Cone Sul). Está no calção dos chibeiros naufragados, independente do ritmo quaternário das metralhadoras. A arte está na Encruzilhada, sob os toldos.”
(Luiz Sérgio Jacaré Metz, Zero Hora, 22/10/1982)

Metz foi o idealizador do Tambo do Bando. 20 anos após sua morte, sua verve crítica e lírica permanece influenciando a literatura e a composição locais, mas de forma limitada, considerando seu potencial. Quem conviveu com o artista, assegura que ele era uma figura ímpar e cativante. Assim, costuma-se levar adiante a tentativa de sensibilizar mais pessoas para suas “causas”. Sua novela “Assim na Terra”, publicada em 1995 pela Artes & Ofícios e aclamada pela crítica, teve reedição apenas em 2013 pela Cosac & Naify. Está na hora de reeditar os discos também, para que sua arte perpetue. Se ele estava à frente de seu tempo, não viveu o suficiente para presenciar a virada que hoje se avizinha. Abriu-se mais espaço na cultura sul-rio-grandense para a diversidade. O tempo do Tambo do Bando é hoje.



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