3 lançamentos para conhecer a música popular uruguaia, com a letra D

Daniel Drexler (acima), Diego Kuropa (esquerda) e Dany López (direita) lançaram novos álbuns em 2015
Quem ainda não escutou cancionistas como Ana Prada, Jorge Drexler, Samanta Navarro ou Sebastián Jantos, não tem perdão. Vá correr atrás do tempo e se virar para ouvi-los. Sobre os veteranos Fernando Cabrera, Rubén Rada, Jaime Roos e Daniel Viglietti não vou nem perguntar (e se incluísse os falecidos, não esqueceríamos Alfredo Zitarrosa). Agora, se ainda não ouviu Daniel, Diego ou Dany, todos com a letra D, assim bem íntimos, vou dar uma chance. Os três representantes do que podemos chamar de música popular uruguaia lançaram ótimos discos no ano passado. Vamos comentá-los!

Talvez pelo fato de não rivalizarem culturalmente com o Brasil, como fizeram historicamente os argentinos, a MPB acabou sendo uma nítida influência para os uruguaios. Ou teria sido simplesmente por identificação, considerando que o país foi território português e brasileiro no passado? Neste trio sobre o qual estou escrevendo, fosse analisar só a música, de forma fria e fora de contexto, diria apenas que são pop. Mas nenhuma destas classificações de gênero explicam bem a cena contemporânea do país vizinho. O investimento na canção é um traço importante. No entanto, sem o peso da tradição que boa parte dos brasileiros carregam nas costas quando vão compor algo nesta seara, repleta de harmonias e ritmos complexos. E aqui não há juízo de valor estético.

Passemos a falar então dos três trabalhos, que se unem pela suavidade no cantar, pelas boas letras e a leveza de arranjos simples e modernos. Novas expressões da música popular uruguaia!


Daniel Drexler - Tres Tiempos
Daniel lançou seu quarto álbum em formato livro, com DVD das músicas gravadas em estúdio e senha para download do áudio. Não chega a ser uma novidade este tipo de lançamento fonográfico, mas também não se tornou nada comum ainda no mundo, muito menos no Uruguai (considerando que sua estratégia de mercado extrapola a terra natal e vise inclusive o Brasil). O capricho gráfico e sonoro condiz com o estilo do irmão mais novo de Jorge, pois trata com esmero detalhista seu processo criativo e sua carreira.

Em Tres Tiempos, Drexler revisita parte do repertório dos discos anteriores. Destaque para o embalo formidável da despretensiosa Lo que siempre fue, e do arranjo empolgante de Descolgados. Também preste atenção no compasso ímpar e acelerado de Dinero, enquanto repensa a vida, e na mansidão irresistível da canção de ninar adultos Cruz del Sur. Claro que não faltam referências folclóricas, como na chamamecera Rinconcito, e nos aires de zamba de Digo. Sobre estes ritmos cabe perguntar: teria o uruguaio flertado mais com os hermanos argentinos? Sabemos que mais tradicional em seu país são o candombe e a murga. E vamos afirmar que o tango seria algo compartilhado (sem querer entrar na briga eterna entre os vizinhos). Para compreender a questão, vamos ao livro.

No texto que acompanha a mídia audiovisual, Daniel revela bastidores de três momentos da carreira e reflete sobre a vida, a cultura e a música. Aliás, um ponto forte em sua obra reside nas letras sobre o cotidiano. O livro contém ainda o artigo Templadismo, em que descreve sua teoria sobre a atual música da região do Prata, que inclui argentinos, como Kevin Johansen, e brasileiros do sul, como Vitor Ramil.  O termo não pretende definir um movimento estético, mas reúne características determinadas pelo clima e pela paisagem que um grupo de cancionistas compartilham e expressam de forma semelhante. Daí o uso de chamamés, tangos e principalmente milongas como língua comum.

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Dany López - Polk
Depois do muito bem produzido Acuario (2008) e do bem-vindo intercâmbio musical do disco Canciones Cruzadas (2012), ao lado do porto-alegrense Marcelo Delacroix, Dany López mantém a boa mão para canções assoviáveis. Polk (2015) foi lançado na internet. Por enquanto, houve pouca repercussão no Rio Grande do Sul, lugar onde o músico tem frequentado os palcos e estúdios. Mas não é tarde para celebrarmos um trabalho que dialoga diretamente conosco.

Além de compositor, Dany López é tecladista, arranjador e produtor requisitado em Montevidéu. Participou do disco de Daniel Drexler, já comentado aqui, e atuou ao lado de boa parte dos nomes da música popular uruguaia.

Polk integra esta cena contemporânea de Montevidéu com todos os ingredientes: canção, folclore, pop, rock. O jeito de cantar dele também é contido e próximo da fala como no standard da MPB. A palavra título é uma aglutinação de pop e folk. Vamos perceber os dois elementos ora muito juntos nas músicas do disco, ora mais distantes. Se não for ouvir faixa a faixa, comece pela balada Radar, e vá para Milonga del viento, com uma voz conhecida dos gaúchos, a do pelotense Vitor Ramil. Dá pra ter uma boa ideia da face eclética do trabalho.

Além de Ramil, Dany chamou para participar das gravações, o maranhense Zeca Baleiro, a espanhola Queyi e a argentina Mariana Baraj. Neste ano, haverá o lançamento da segunda etapa de Polk, desta vez um livro com impressões de artistas de diferentes países, como o porto-alegrense Cláudio Levitan e a uruguaia Ana Prada.

Diego Kuropa - Herencia
Kuropa está no terceiro álbum da carreira, o primeiro assinado solo. Em 2007, debutou com Y que dirán. Na capa, o nome Kuropa & Cia expressava uma formação ligada à ideia de banda, mas acústica. As faixas vinham com roupagem de violões de aço, baixo, bateria e percussões. No entanto, o destaque já era o conjunto letra e melodia.

No ano seguinte, gravou disco ao vivo ao lado do compositor veterano Rubén Olivera. A ênfase recaiu totalmente na canção, registrando-se performances de banquinho e violão.

O novo CD Herencia não se diferencia muito em estilo dos trabalhos anteriores, baseados na veia cancionista do uruguaio. Talvez agora os arranjos estejam indicando algo mais contemporâneo. A guitarra de Federico Mujica é a estrela. Mas com proposta minimalista e dinâmicas contidas, a voz clara e suave de Diego continua sempre acima dos instrumentos. O álbum tem coesão, ouve-se do início ao fim, sem decepções. Ainda assim, podemos destacar a roqueira primeira faixa, Dejá de ser un niño, a bela letra de Tengo, o arranjo com timbres e efeitos de guitarra bem colocados de La luz, e a que mais dá vontade de pedir num show pra cantar junto e pular: Soneto kistch a una mengana.

Kuropa não investe abertamente na intersecção estética com o Brasil, tal seus compatriotas citados fazem. Mas podemos captar na dicção do seu cantar e em outras sutilezas um investimento na canção que é diferente dos argentinos, por exemplo, que acabam tratando-a como balada de rock. A canção que os uruguaios criam hoje é pop, mas com um quê de Brasil. Só por esta familiaridade, o risco de gostar já é grande.




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