Identidade e hibridismo no filme A Linha Fria do Horizonte


Fazendo um balanço de 2015, destaquei uma publicação acadêmica. Em outubro fui a Passo Fundo (RS) apresentar um artigo no III Congresso Internacional de História Regional. O tema foi o filme "A Linha Fria do Horizonte", numa análise diante de conceitos importantes para os Estudos Culturais: identidade e hibridismo.

Pra quem ainda não assistiu ao documentário, reitero a recomendação. A história dos cancionistas sul-rio-grandenses, uruguaios e argentinos, que vem nos últimos anos intensificando o intercâmbio musical, está bem registrada por Luciano Coelho e equipe.

Leia mais sobre o filme:
A Linha Fria do Horizonte – há uma movida, no centro de outra história
Por que precisamos de uma movida?

Segue o resumo:

III Congresso Internacional de História Regional – UPF – 2015
IDENTIDADE E HIBRIDISMO MUSICAL NO FILME A LINHA FRIA DO HORIZONTE
O documentário musical A Linha Fria do Horizonte (Luciano Coelho, 2014) mostra a obra e o pensamento de um grupo de cancionistas, tais como o brasileiro Vitor Ramil, os uruguaios Daniel e Jorge Drexler e o argentino Kevin Johansen. Propõe-se uma reflexão sobre os discursos contidos no filme, relacionando as noções que evoca (Estética do Frio, Templadismo e Suptropicalismo) aos conceitos de identidade e hibridismo (em Néstor García Canclini, Homi Bhabha, Stuart Hall e Peter Burke). Também contextualiza-se o documentário diante da cinematografia gaúcha. Mesmo que produzido em Curitiba, o longa-metragem busca mostrar um movimento musical contemporâneo que envolve artistas do Rio Grande do Sul, do Uruguai e da Argentina. Versa sobre a histórica e imaginária região do Prata, que ao longo dos séculos XIX e XX teria servido às constituições identitárias de cada país e região em separado. Agora, para os músicos que participam do filme, a cultura platina justifica o intercâmbio e a representação comum, em torno da paisagem, da milonga e do sentimento de localidade. Desta forma, neste caso, a questão da identidade está mais ligada à ideia de processo, e o hibridismo musical, desligado de subordinação. Dialogando com estes conceitos e analisando este filme, efetuo uma aproximação teórica e temática acerca do objeto que pesquiso como tese de doutorado: o espaço de cancionistas do Rio Grande do Sul na mídia.

Vou destacar alguns trechos da publicação:

"Para além do simples cavalgar de um gaúcho no asfalto, a música documentada e problematizada no filme é consequência de um processo que transforma elementos locais e globais em uma cultura de terceira instância. Se formos chamá-la de híbrida, é necessário salientarmos que este termo remete à antropofagia, à apropriação e à transculturação, noções que incluem intrinsecamente a reciprocidade". 

"Caberia perguntar se, mesmo compondo milongas (ritmo reconhecido como gauchesco), Vitor Ramil não se sente incluído neste chamado “gauchismo”. O próprio artista, em outra passagem do filme, reforça que não. Conta que foi muito criticado quando lançou o álbum Ramilonga (2000), porque era visto como roqueiro, urbano, e por isso não teria direito de cantar milonga. Defendendo-se, pergunta por que então a milonga o comove. E para compreendermos melhor este “preconceito”, recorremos a Ruben Oliven (2006), quando conclui em seu estudo do gauchismo que se trata “de uma construção de identidade que exclui mais do que inclui, deixando fora a metade do território sul-riograndense e grande parte de seus grupos sociais”. 

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