A Linha Fria do Horizonte – há uma movida, no centro de outra história

Comecei a escrever este blog em 2007, com o intuito de publicar textos e fotos. Mas não simplesmente como um diário, ou um portfólio. Desde o início, um norte guiou a produção desaguada aqui. Dialeticamente, o norte era o sul, parafraseando Torres García. Esteticamente, a inquietação de mão dupla entre campo e cidade, pampa e urbano. Tudo uma questão de identidade e música, ligada à região do Prata.


Pois quando fiquei sabendo da produção do filme A Linha Fria do Horizonte, foi uma excitação total. O que eu mais gostava e tentava traduzir, refletir, observar, estava agora indo pra grande tela. Como é bom saber que há mais gente remando na mesma direção que a gente! O mesmo já havia sentido quando Demétrio Xavier começou a comunicar seu programa Cantos do Sul da Terra, na FM Cultura. O mesmo quando assisti ao documentário Mais Uma Canção, sobre a obra do Bebeto Alves. Quando entrevistei Marcelo Delacroix e Dany López sobre o disco Canciones Cruzadas... Quando Richard Serraria começou a Movida Tri Platina... A lista só tem crescido!

Anteontem, finalmente, após quase dois anos de espera, assisti ao documentário dirigido pelo paranaense Luciano Coelho, na estreia televisiva no Canal Brasil. Fiquei muito satisfeito com o que vi. A Linha Fria do Horizonte é a síntese de um movimento cultural que vivemos aqui. Mesmo que possa não ter abrangido toda uma história que determinou o que está acontecendo agora, nem que tenha deixado de lado possíveis desdobramentos futuros. O mundo inteiro não cabe na tela, é preciso fazer escolhas. E as dele garantiram um filme atual e formidável.

Vitor Ramil é o epicentro que desencadeou a reflexão sobre esta linha fria, com seu texto A Estética do Frio, de 1992. Sua longa entrevista vai costurando o roteiro. Logo no início, o compositor conta que respondendo a um repórter sobre estar no sul do Brasil, à margem do centro, disse: “Não estou à margem do centro, estou no centro de outra história”. Entre “o Brasil”, Uruguai e Argentina. Na região do Prata.

Pincei algumas outras declarações dos cantautores hermanados no filme. O uruguaio Jorge Drexler fala de participar desta movida morando em Madrid: “A distância é um catalisador da identidade regional”. Dani López, em Montevidéu, constata que há uma movida de compositores querendo responder à mesma pergunta: “Como as coisas são vistas desde aqui?”.

Fica claro que além das condições pré-estabelecidas de clima, geografia e história comuns, os platinos estão olhando para os vizinhos, visitando-se e laborando juntos. O processo de identificação desloca-se com eles do conceito encerrado em fronteiras políticas, e se abre sobre toda uma região multinacional.

O que este filme e manifestações como as outras que citei no início do texto têm de extraordinárias? O principal é que tratam de regionalismo sem se apegar a estereótipos estanques, como o do gaúcho. Buscam algo mais em sintonia com o processo histórico e o devir artístico. Deixam a inquietação criativa levá-los além-fronteira. Rotulam-se apenas em reverência ao que admiram: subtropicalismo, templadismo. Mas não se resumem, nem se limitam. E é disso que mais gosto. Seguir receitas prontas costuma ser tão brega!

Leia mais sobre A Linha Fria do Horizonte:
Site oficial
Sobre A Linha Fria do Horizonte

Leia mais sobre artistas presentes no filme:
Banzo bom e o disco délibáb de Vitor Ramil
Canciones Cruzadas em tempos fragmentados
O Prata se conjuga Prada no feminino
Kevin Johansen subtropical
Richard Serraria e Iemanjá - Azul meu orixá
Silbar depois da janta
Zelito, o criador de música

Leia sobre o filme Mais Uma Canção:
Bebeto Alves representa

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