O Prata se conjuga Prada no feminino

Trilogia Soy da cantautora uruguaia Ana Prada ascende ao final


Tenho ouvido sem parar três álbuns recentes. Todos remetem à região do Prata. Entre eles, o esplêndido Bailar en La Cueva, de Jorge Drexler, e o surpreendente Samboleria, de Antonio Villeroy. Mas deixemos os homens um pouco de lado. É sobre o disco Soy Otra, de Ana Prada, que preciso escrever agora.

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O terceiro álbum solo da cantautora uruguaia segue a linha da trilogia iniciada por Soy Sola e entremeado por Soy Pecadora. Ainda bem. Mais canções simples e poderosas. Agora, em Soy Otra, como normalmente se esperaria do final de uma sequência, a artista chega ao ápice estético. O mesmo ocorreu com Caetano Veloso na trilogia Cê (- e aqui evoco mais um boludo...).

Arranjos dignos de grandes composições imprimem cordas e metais logo na primeira faixa. Mesmo. Não da forma como bandas pop vem vulgarizado o papel destas instrumentações. Sim, do modo como compositores de peso da MPB, a exemplo do próprio Caê, davam-se ao luxo de arregimentar com perfeccionismo cada timbre, para que cada futuro clássico obtivesse sua versão definitiva logo na estreia. Vale observar que ultimamente o luxo do baiano resumiu-se a guitarra, baixo e bateria.

Mas seguimos com a uruguaia (- desculpem a dificuldade em abandonar o parâmetro masculino).

Sua obra é composta de carga dramática e ironia fina, que se alternam valsando, aceitando sotaques chamameceros, de habaneras e chacareras. À primeira escutada, a valsa remete à solenidade - traço comum na região platina. Mas Ana Prada não se resume ao ritmo mais frequente. É maliciosa. É sensível. É pop também.

A coerência e consistência do álbum fazem dele uma peça daquelas raras, as quais ouço do início ao fim, sem impulso de pular faixas no meu iTunes. Um fator determinante para esta unidade está no cantar pleno de Ana Prada. Nunca exagera. Assim, aproxima o universo folclórico da balada. Com delicadeza e precisão oferece emoção na medida de cada história que conta nas letras. Seu canto liga-se ao do mais afinado cantautor, e se distancia da voz impostada das prendas de concurso ou festival.

Versos como o último entoado no disco, “Estoy, felizmente, desacostumbrando de me”, entregam a intenção dela se reinventar. Em outros, reflete sobre amores e perdas. Com humor, regrava a genial “La entalladita”, da mexicana Amparo Ochoa, e responde ao machão que proíbe a mulher de ir ao baile com um vestido curto: “Yo no tengo la culpa de haber nacido bonita”. Estupendo!

Ana Prada acertou na veia. É o grande nome feminino da música do Prata. Encontrou seu meio-termo para edificar uma obra única. Sabemos com ela, portanto, que enquanto cantarmos imitando “la madre”, ou masculinizadas sob a sombra do gaúcho, estaremos fadadas ao arremedo. Distantes de criarmos uma identidade platina, com “A” maiúsculo no final, que supere o sufocante estereótipo machão (- reparem que já estou conjugando no feminino em primeira pessoa).

As afirmações dos títulos dos três discos (Soy Sola, Soy Pecadora e Soy Otra) nos dão a pista. Seja Ana Prada outra, sozinha ou pecadora, segue buscando de forma original o seu ser. Temos aí uma das grandes contribuições do gênero. Feminino.

Leia mais sobre Ana Prada aqui.

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