O Linguiceiro da Rua do Arvoredo: ficção X não-ficção

Publico aqui um texto ficcional introdutório (Linguiça cacher?) e outro resenhando a peça O Linguiceiro da Rua do Arvoredo (Arte e sátira na rua do Arvoredo). Escrevi isso há mais de ano e o material ficou engavetado. Agora trago a público, visto que o projeto deve gerar um filme, em breve.

Foto de Renata Ibis

Linguiça cacher?

O maior crime desta terra presenciamos nas exibições da peça “O Linguiceiro da Rua do Arvoredo”. Blasfêmia! Como puderam satirizar o Hino Rio-Grandense? Não podemos admitir tal impropério.

Pra quem não assistiu ao teatro, nem ouviu falar da história, esclareço. Nos idos dos anos 1860, a próspera cidade de Porto Alegre abrigava uma alemoada decadente, que invadiu o território gaúcho. Eram responsáveis pelo serviço sujo, ao lado da negrada que teria alforria duas décadas depois. Estes imigrantes não falavam português e ainda promoviam a promiscuidade em nossas plagas.

Aquela puta daquela alemoa, chamada Catarina Palse, amansada com um pobre gaúcho, José Ramos, foi a grande culpada por tudo que ocorreu naqueles anos. Seduziu diversos homens e os levou à casa maldita. Ramos, desequilibrado da cabeça, perdia as estribeiras e acabava matando os visitantes. 

Não satisfeita, tratou de se eximir de culpa durante o julgamento e, sem revelar o paradeiro dos cadáveres, inventou que o marido mais seu amante, o açougueiro também alemão Carlos Clausner, faziam lingüiça de gente. Impossível que o povo porto-alegrense não fosse perceber o gosto pútrido.

O causo provocou comoção regional e repercussão internacional, envergonhando nossa gente até hoje. Desta forma, além de não recomendar este teatrinho, convoco a todos os gaúchos que tem orgulho desta terra a boicotar novas temporadas da montagem, caso haja.

Deprimente. Tinha que ser um paulista capitaneando. Além de misturarem rock com fandango, que já seria inadequado, lembraram aquele musical meio comunista com trilha do carioca (!) Chico Buarque: Saltimbancos. Expliquem-me o que tem a ver? 

*por Davi Schwartz* patrão do CTG Arroz de China


Arte e sátira na rua do Arvoredo

Após esta carta alegórica, vamos ao comentário sem pseudônimo e um pouco menos ironia. Inventei este personagem tentando expressar o conservadorismo que contamina o imaginário da capital do estado do Rio Grande do Sul, ora diluindo-se entre as três cores da bandeira, em outros tempos tingindo-as, ou ainda, parece ser o caso do episódio dos crimes da Rua do Arvoredo, limpando-as. O personagem também evidencia a confusão sobre detalhes da matança, ocorrida no século XIX e muito presente no imaginário local, desde então.

Este imaginário é o principal mote da montagem “O Linguiceiro da Rua do Arvoredo”, que estreou no Theatro São Pedro em agosto de 2012. O musical possui atos elaborados e tecnicamente bem executados, principalmente utilizando luz, sombra e escuridão, o que ambienta um enredo de terror. Mas o que mais me tocou foi o tratamento focado no significado da história hoje, em detrimento de uma pretensa fidelidade ao ocorrido.

Foto de Renata Ibis
Para o diretor santista Daniel Colin, esta devia ser apenas uma fábula inexistente em sua formação cultural. A não ser que fosse aficionado por crimes bizarros. Daí sim talvez tivesse lido na infância, em algum almanaque de serial killers, sobre o chacal sulino. Descoberto pela polícia, contava com a ajuda da esposa para matar a machadada, degolar e esquartejar as vítimas, logo após transformadas em linguiça por um comparsa açougueiro. Para os atores e demais realizadores gaúchos, imagino, era algo obscuro e até intocável, por culpa das aulas de história no colégio e das matérias apressadas da nossa mídia. Mas com muita pesquisa e criatividade, os teatreiros foram além da simples reprodução de uma história mal-contada.

Chacais

Um dos clímax da peça acontece ao som de “Cidade das Alegrias”, de Bruno Westermann e Lauro Pecktor, autores da trilha original. A composição mistura uma sátira do Hino Sul-Rio-Grandense com um trecho da trilha do clássico Saltimbancos. A intertextualidade deixou o espetáculo mais palatável à nós, homens médios, sem perder em conteúdo. Já assisti a muito espetáculo desprovido de senso crítico, que reproduz o ideário tradicionalista. E sempre acreditei que o papel do artista não é de mero reprodutor de ideologias, mas de revolucionário de seu tempo. Assim, regozijei-me na cadeira do Teatro Renascença, quando assisti à segunda temporada no ano passado. Pois a sátira anticívica coloca no hino a sujeira deprimente das ruas da capital do século XIX. Caso temêssemos a vigília do Movimento Tradicionalista Gaúcho, seria um ato de coragem deste grupo de artistas.

A montagem baseia-se principalmente nos autos oficiais da investigação dos crimes, bem como no livro “O maior crime da terra”, do historiador Décio Freitas, pesquisa referência até o momento sobre este caso, do qual se conhece poucas fontes confiáveis para uma reconstituição mais consistente. De lenda urbana, os crimes da Rua do Arvoredo crêem-se verídicos na consulta de Freitas aos processos jurídicos da época, que condenaram José Ramos e Catarina Palse pelos assassinatos, mas não concluem nada sobre a confecção de linguiça com carne humana. A única evidência deste canibalismo coletivo está no depoimento da mulher, tida como louca após certo tempo na cadeia.

Cientes da precária base historiográfica, a equipe da peça, idealizada por Carol Zimmer, deteve-se a explorar o entendimento que se tem hoje na cidade sobre o fato distante. Saúdo o recorte na trama pelo valor cultural que tem. Ainda, compondo o projeto, a fotógrafa Renata Ibis colou retratos dos personagens, em tamanho real, pelas paredes da Rua Fernando Machado, antiga Rua do Arvoredo. O que significa isso? Provocação do imaginário. Reflexão. Ingrediente vital para a arte.

Canibais

Imaginem se tivessem optado por outro caminho estético. Em nome de uma narrativa mais “atrativa”, tivessem suprimido o personagem Carlos Clausner, que era o linguiceiro de profissão, para integrá-lo a um personagem só, que era o assassino José Ramos, esquartejador por índole. Também criassem um romance paralelo da imigrante Catarina Palse com alguma vítima, conferindo muito mais emoção e dramaticidade, apesar de clichê. Ainda, para um final “inusitado“, matassem o psicopata, vingando o imaginário da cidade em nome da ordem pública.

Difícil especular sobre possíveis escolhas “aleatórias” na criação artística. Teria sido uma peça com mais ação? Menos fiel à história? Lugar-comum? Quem sabe. Acredito que teria, sim, menos comprometimento cultural, e mais afinidade com o comércio de arte. Antes a sátira do que uma versão nebulosa. Um pastiche da história levaria a mais confusão sobre o fato, de forma gratuita.

Ainda bem, estes artistas escolheram um caminho que busca reflexão sobre nossa herança urbana. Assim, a arte pode ajudar a repudiar a barbárie, em nome da convivência pacífica e respeitosa entre diversas raízes culturais. E para desespero do patrão Davi Schwartz, a equipe pretende rodar em breve um filme sobre o tema.

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