A cuia na praça

*artigo publicado no jornal O Nacional, edição de 24 de agosto de 2013

Em meados do século vinte numa cidade ao norte do estado do Rio Grande do Sul, falam os populares que um objeto voador não-identificado teria sobrevoado aquelas glebas, deixando rastros. Além de sinais em lavouras de trigo, a maior prova de um suposto contato imediato de terceiro grau está até hoje instalada na praça central do município.

Um monumento arredondado, parece um recipiente com uma haste, tornou-se o maior símbolo cultural daquela localidade. Há quem diga ser uma referência a uma bebida indígena, pois kaingangues teriam habitado as terras num passado longínquo. Outra explicação, mais descabida ainda, vem de radicais tradicionalistas, segundo os quais o utensílio serviria para conservar costumes. A prefeitura há anos tenta legitimar uma versão na qual se exime de culpa: a escolha estética duvidosa teria sido um presente de grego, regalado pelos paulistas.

Em busca da verdade, consultei o Instituto de Altos Estudos Extraterrestres de Ernestina. Eles pesquisaram o filme Sinais, de Mel Gibson, rodado em Hollywood em 2001, e que mostra contatos imediatos aqui nesta cidade, ao sul do Brasil. Os especialistas concluíram que o longa-metragem Gaúcho de Passo Fundo é um produto de contra-propaganda, que serve ao propósito de apagar da memória da cidade os fatos reais, depois da abdução do cantor Teixeirinha.

Se o leitor acreditou em alguma dessas sandices que escrevi até agora, não se sinta menos esperto. Esta coleção retórica estapafúrdia é digna do imaginário nebuloso o qual compartilhamos hoje no município de Passo Fundo. Alguém aí conhece uma explicação mais plausível? Passe o mate, então.

Nos dois anos em que estudei a história da construção do mito do gaúcho na cidade, não encontrei fontes confiáveis. Ressalvo aqui que meu objeto de pesquisa, no mestrado da Universidade de Passo Fundo, não era especificamente a cuia. Mas a representação que ela impõe, sim, figura no rol dos gauchismos aos quais me debrucei, ao lado de rodeios, festivais de folclore, Teixeirinha, etc.

O monumento da cuia de chimarrão, todo passofundense sabe, está instalado na praça Marechal Floriano. Segundo o site da prefeitura, foi doada em 7 de agosto de 1957, pelo Governador de São Paulo, como presente pela passagem do centenário do município. O intrigante é que esta síntese da gênese se repete em livros de história e brochuras de turismo, mas eu não encontrei nos dois jornais diários da cidade uma nota sequer durante aquele ano que falasse em Jânio Quadros e cuia.

O fato de não haver explicações que acompanhem sua força imagética no repertório municipal requeriu uma análise político-cultural. O sentido gauchesco, e de tradição, vem sendo colado ao monumento desde os anos 50. Recorrentemente encontramos publicidade de órgãos públicos e empresas privadas que identificam a imagem da cuia como símbolo da cidade. Na época da pesquisa, fui às secretarias de Cultura e de Planejamento, onde ouvi desculpas por não saberem detalhes da origem da façanha.

Outra curiosidade é que o monumento é pilhado constantemente, tendo placas informativas furtadas e sua base pichada. Em outubro de 2007, reparei que acompanhavam a escultura uns versos gauchescos e a informação do número da lei que a instituiu como símbolo municipal. Com projeto de autoria do vereador Meirelles Duarte, a cuia entrou para o rol oficial representativo do município em 26 de dezembro de 1995. Na época, a placa que explicava o monumento continha a inscrição “Passo Fundo, Tchê”. A lei previa ainda que o símbolo fosse estampado em todos os impressos utilizados pelos poderes executivo e legislativo.

Na justificativa do projeto, o vereador não fez menção alguma ao episódio de instalação e se apoiou em integrantes do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Para eles, o monumento mostraria uma das tradições gauchescas, o chimarrão, que representa a cordialidade e a hospitalidade. Para a prefeitura e para nossas mentes muito suscetíveis a informações midiáticas fragmentadas, está a contento. Mas para os índios que inventaram de beber chá de erva-mate num vasilhame feito de porongo, sorvendo com uma ripa de taquara, não seria bem isso.

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