Respeitável público, apresento-lhes o magnífico: Nei Lisboa!



Metendo o dedo em mais uma polêmica ao redor do gauchismo e da música da região sul do país, escrevo aqui sobre o compositor Nei Lisboa, que tem sido alvo de nativistas e tradicionalistas, após crítica proferida contra os segundos e os terceiros, indiscriminadamente. Inicio por seus feitos artísticos, passo pelo quiprocó midiático e chego a um parecer pretensioso.

Quem é
Nei Lisboa é um dos maiores compositores do estado do Rio Grande do Sul, de larga trajetória alicerçada entre a MPB e o rock. Seus fãs são estimados por sua elegância poética e sua sagaz musicalidade. Lança discos periodicamente, desde o tempo de cabelos desgrenhados e estampa esguia, até a barriga de pai grisalho de hoje. Sua vida está gravada no estouro de canções latino-americanas, ablueseiradas, alternativas, pops e românticas.

Suas composições urbanas ora conversam com a Música Popular Gaúcha (MPG), de Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves, Totonho Villeroy e Cia., ora conectam-se ao pop de Engenheiros do Hawaii. Essas referências são apenas para situar o internauta mais desavisado, pois acredito que a obra de Nei Lisboa difere-se muito das possíveis linhas estéticas da música feita no Rio Grande do Sul. Talvez seja o maldito cantautor mais universal da região, embora menos famoso além-fronteiras.

Sua qualidade poética está na malícia, na ironia e na astúcia de artista que amadurece junto ao seu trabalho. Musicalmente, conversa com o cancioneiro americano e muito com o pop-rock. Nei oferece baladas, reggaes, marchinhas, candombes, blues e o que mais couber na coesão de seus discos.

O que disse
Em 25 de janeiro de 2010, sete dias após completar 51 anos, Nei Lisboa teve publicada entrevista que concedeu ao jornal Zero Hora, intitulada “A utilidade das palavras”, em que falou da carreira e da cena musical do estado.


Nei declarou que a música do ícone gauchesco Teixeirinha nunca o seduziu a ponto de produzir alguma coisa com ela. “Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas”, sentenciou. Também lembrou o início de sua carreira, na virada dos anos 1970 para os 1980, quando foi o boom dos festivais, “do tradicionalismo” (sic) . Indagou qual seria a identidade musical de Porto Alegre, concluindo que há dificuldade nessa matéria, quando se está entre a tropicalidade da música brasileira no verão e o frio que demanda outro tipo de som. Então proferiu suas frases mais contundentes:

“A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.”

É claro que, como acontece em todos os casos em que alguém desvaloriza ou desmistifica a identidade gauchesca, houve reações ríspidas, desta vez na internet e na mídia.

Em que estado
Aqui registro minha reflexão sobre o debate. Há uma distinção fundamental no entendimento da história da cultura sul-rio-grandense que é negligenciada no senso comum e que o foi por Nei Lisboa em sua crítica. Os termos nativismo e tradicionalismo significam vertentes diversas e por vezes antagônicas de arte regional, na pretensão de representar o Rio Grande do Sul. O nativismo é um movimento calcado nos festivais musicais nativistas que preenchem a agenda das cidades sulistas desde 1971, quando foi criada a Califórnia da Canção Nativa em Uruguaiana. O tradicionalismo tem como sustentáculo uma organização chamada Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que desde sua fundação em 1966 normatiza os fazeres culturais ditos gaúchos.

A grande diferença prática entre nativismo e tradicionalismo, idealmente, está no cerceamento à criação artística. Os tradicionalistas têm a pretensão de pesquisar e perpetuar o que seria genuinamente gaúcho, buscado no remoto passado de um interior pastoril e desempenhado em clubes de rígido e unívoco regimento, os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs). Por sua vez, os nativistas têm como princípio da existência recriar-se artisticamente com reverência ao regionalismo, da utopia ao cotidiano.

Desculpo o Nei Lisboa por perpetuar esta confusão conceitual, pois os próprios movimentos hoje estão híbridos e impregnados de uma simplificação em torno de um pastiche gaúcho. Mas insisto em descriminar o que é nativismo e o que é tradicionalismo por uma questão de elogio à história cultural do estado e crença no potencial artístico regional, que não deveria deixar a contaminação dogmática do MTG afetar a criatividade e o engajamento nativistas.

Iniciação à obra
A verdade é que Nei Lisboa está bem distante artisticamente do gauchismo em geral (que incluiria nativismo e tradicionalismo). Mas a incansável vontade de sermos representados e nos identificarmos regionalmente coloca o compositor no alvo de nossas aspirações e preconceitos. Afinal, ele nasceu no estado, portanto gentilicamente é gaúcho. Mas artisticamente, teria obrigação de carregar este referencial gauchesco não-urbano?

Para os não iniciados e para os que curtem, assistam a duas performances de Nei Lisboa, com parcerias de ontem e de hoje:

Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (com Augusto Licks)

Bom Futuro (com Simone Capeto)

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