Polêmica dos CTGays

Reproduzo na íntegra aqui a entrevista que o jornalista Humberto Trezzi publicou em Zero Hora, na edição de quarta-feira (16/10). A matéria repercutia a polêmica em torno do texto publicado pelo tradicionalista Ademir Canabarro no site http://www.coxixogaucho.com.br/.

A preocupação da gauderiada está no "avanço assustador do homossexualismo", inclusive nos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs).

Na entrevista abaixo, o entrevistado é Tau Golin – jornalista, historiador e principal crítico do tradicionalismo gaúcho.

Humberto Trezzi - Como o senhor viu o artigo do tradicionalista Ademir Canabarro, reclamando do excesso de trejeitos gays nos CTGs?
Tau Golin - Muitos tradicionalistas acreditam que o CTG é uma espécie de território sagrado do machismo. Reproduzem uma ilusão, como se fossem sucedâneos de um passado heterossexual; como se o presente fosse a sua repetição – a que dão o nome equivocado de tradição. Caso repetissem as práticas sexuais do passado, o assunto seria mais sério, de arrepiar, especialmente no que tange a iniciação sexual, que no geral depois se mantém como hábito na zona rural, inclusive em indivíduos casados. Ao cabo, existe a intolerância com os homossexuais, e a aceitação silenciosa, quando não anedótica, tema de versos e músicas da gauchada, o coitus cum bestia, o sexo com animais. O artigo é a expressão de um simulacro de moralidade, uma discussão que foge do principal. Cada vez mais, o tradicionalismo se reproduz fazendo uso da intolerância. Sem ter nada a propor de concreto e relevante para a sociedade, estipula-se com uma moralidade de regramentos abstratos.
HT - Como o senhor vê a posição do presidente do MTG, Oscar Grehs, dizendo "que Deus me tire a vida se o MTG virar isso"?
TG - É uma falsa questão. Certamente, o presidente não precisará cometer suicídio, pois acredito que Deus – se existir – deverá ter assuntos mais relevantes para se preocupar. Pelo que tenho visto sequer é uma bandeira homossexual transformar o MTG em uma entidade de sua propaganda ou representação. De fato, o mundo virtual, simbólico, teatral, fulgurante, alegórico e barroco do tradicionalismo também tem encantado homossexuais. Muitos deles são responsáveis pela robustez do MTG, pois, no geral, são eficientes produtores culturais, talentosos na dança e, alguns, destros nas provas campeiras. A hegemonia dos brigadianos pressiona para que o tradicionalismo tenha uma formatação de caserna.
HT - O senhor não acha que, sendo uma entidade tradicionalista, o CTG tem direito a impor regras, tais como a dança como expressão da virilidade?
TG - Como entidade da sociedade civil, em seu âmbito privado, pode parecer-ser o que quiser. É uma escolha particular. O problema é que o MTG pretende transformar o simulacro tradicionalista em gentílico, em imagem para todos os rio-grandenses. É isso que faz cotidianamente em sua invasão dos espaços públicos.Grande parte dos comandantes que conquistaram e mantiveram o Rio Grande não tinham a virilidade como expressão de grossura e rusticidade. Alguns andavam de peruca, pó na face, sapatos com fivelas decorativas, cavalos emplumados e outros adereços.O engraçado é que não se escuta nada sobre a masculinidade das prendas e a estética da grossura, do roncar grosso, do culto à violência das crianças!
HT - O senhor acha uma contradição os gays participarem de CTGs?
TG - Não! Este episódio me lembra da história do Hermes, possivelmente o primeiro homossexual assumido de São Gabriel. Depois de correr mundo, ele trabalhava no cassino dos oficiais. Lutava box e luta livre. Certo dia apareceu na cidade um circo de lutadores, com algumas mulheres, como a notável “Mulher Leoparda”. Durante as sessões, elas desafiavam os homens da cidade dos marechais para lutar. E foram vencendo todos os machões. Já tinham surrado meio Rio Grande na turnê do circo. Com os valentões desmoralizados, a gauchada foi em comissão implorar ao Hermes para livrar a cidade daquele vexame. Lembro ainda de seu choro compulsivo na cozinha da minha avó, como se tivesse feito algo contra seus princípios, depois de vencer aquele time de lutadoras, sob a ovação dos “machões” durante uma semana.

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