Para integrar todo o mapa, oferecemos baile, atitude e leveza

Milongas Extremas, do Uruguai
Rapazes de Montevidéu empunhavam violões de cordas de nylon tal fossem guitarras e cantavam milongas como nunca se ouviu até então nestas bandas mais tropicais. Um cantautor brasileiro de longa estrada oferecia o banco ao lado para um hermano contemporâneo, com o qual entremeava caprichosa e inigualavelmente frases do idioma milonguístico. Um grupo argentino, formado no Uruguai, arrastava para o teatro uma onda de fãs hablantes de português e espanhol, com ganas de bailar até a madrugada. O festival El Mapa de Todos mostrou na noite de sexta-feira em Porto Alegre que podem ser infinitas as maneiras de integração cultural nos dias que correm.

Fernando Rosa, o maluco que levantou esta bandeira em 2008, não cansa de defender a ideia de trânsito amplo entre as músicas do território latino. Trouxe para uma noite memorável três vertentes dos países do Prata. Assim, colocadas lado a lado, dividindo o palco, para a mesma plateia, ofereceram mostras de nossas similitudes e heterogeneidades.

Pra começo de conversa, a segunda noite da 6ª edição do festival abriu com um quarteto com pinta de hippie. Ao contrário do que suas aparências sugeriam, não tocaram reggae ou rock psicodélico. Mas, em consonância com a postura e a atitude próprias que se esperaria desta juventude, tocaram milongas. Também expressaram sua idolatria por um ídolo, interpretando “De no olvidar”, de Alfredo Zitarrosa, maior nome da música popular uruguaia.

Era a primeira vez em que tocava em Porto Alegre o grupo Milongas Extremas, criado em Montevidéu no mesmo ano em que ocorreu a primeira edição do El Mapa de Todos. E saudaram diversas vezes este feito, hablando portuñol: “incrível estar em Porto Alegre”; “é muito bom chegar aqui e encontrar família”.

A sonoridade do quarteto montevideano é suja, agressiva, estridente. Parece que não se aguentam durante muitos compassos em dinâmica mais branda, pois sempre acabam batendo forte em seus violões e cantando juntos em uníssono. Por exemplo, na canção “La vereda de la puerta de atrás”, um dos pontos altos do show. Mas não mais empolgante que a última, quando um dos integrantes soltou o violão e começou a tocar saxofone, em “Autorretrato”.

Vitor Ramil, do Brasil
Como que para fazer uma transição daquela apresentação enérgica juvenil, na sequência da noite, Vitor Ramil iniciou seu show tocando “Milonga de Albornoz”, em que marcava a harmonia com uma batida seca. Mas logo na sequência começou a ficar muito clara a diferença de intenção na interpretação do pelotense sobre o mesmo gênero que acabara de ser contemplado pela gurizada uruguaia. Em “Chimarrão”, Ramil demonstrou a leveza, o rigor e a melancolia que para ele traduzem a paisagem planificada do pampa.

Sentado ao seu lado, também para apoiar o violão na coxa, o argentino Carlos Moscardini. Eram dois senhores grisalhos, de óculos, vestindo camisa, calça e sapato. Podia-se ver na imagem e na performance a variação musical em relação ao grupo anterior, por mais que a matéria prima, a milonga, permanecesse inspirando.

A sonoridade de Vitor Ramil, ao lado de Moscardini, evoca uma mansidão que ele acredita também estar ligada à sala de estar da sua casa em Pelotas, onde compôs boa parte de sua obra. Contou então que seu filho Ian gravou neste ano um disco no local. “Eu ouvi o som da sala no disco do meu filho”, revelou.

Vitor Ramil tem público fiel na capital gaúcha. Quando tocou Ramilonga, a plateia vibrou e cantou junto. Ao final, o compositor retribuiu o carinho e dedicou a canção aos porto-alegrenses que estão na luta pela preservação do Cais Mauá.

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O repertório foi quase inteiro composto de milongas, à exceção de “Estrela, Estrela”, no bis, em que Carlos Moscardini mostrou mais sua virtuosidade ao violão, improvisando. Além da parceria binacional no palco, a apresentação dos dois incluiu letras em português, como um poema de Fernando Pessoa (“Noite de São João”), e em espanhol, como “Milonga de Los Morenos” (Jorge Luis Borges).

Ao final, como que para “esquentar o clima” e ir preparando a plateia para a energia da atração seguinte do El Mapa de Todos, Ramil tocou “Mango”. Na interpretação, abafava os acordes do violão e cantava o final agudo da melodia de forma gritada, longe do microfone, numa explosão.

Cortinas fecharam, intervalo. Seguiu o festival e a mudança foi radical na comunicação com a plateia, quando o grupo Onda Vaga entoou os primeiros acordes. O Salão de Atos da UFRGS inteiro se levantou e começou a dançar. Estava pronto o baile, embalado por cumbias e derivados, executadas por um número grande de instrumentos, incluindo metais, baixo, cuatro e percussões, .

Onda Vaga, da Argentina

O show do grupo argentino teve um momento mais contemplativo, em que pediram ao público para sentar e ouvir uma canção. Mas a tônica foi o ritmo, a animação. Ao contrário do rigor do anfitrião, que colocou cada nota de forma precisa nos compassos da milonga, pro Onda Vaga tudo ia acontecendo quase descontroladamente, seguindo o pulso da cumbia. Em certo momento, o percussionista perguntou se o público ouvia o cajón: “está bom?”. E seguiu: “no importa, vamo!”.

Nas curtas intervenções entre uma música e outra, os integrantes saudaram a proposta do festival: “nos gusta el nombre”; "quisiera fuera América de todos”.

Era evidente a presença expressiva de fãs da banda argentina na plateia. Acompanhavam cantando maior parte das letras. Mas o ritmo contagiou amplamente o local. Mais pro final do show, chegou ao ponto de o público ignorar a fronteira da beira do palco e subir para dançar.

Ninguém ficou imune ao apelo integrador proclamado pelo festival. Naquela sexta-feira alguns ficariam sabendo via celular, pouco antes de iniciarem os shows, que uma tragédia ocorria na França, por conta de atos terroristas. Sabendo ou não dos fatos, não deixamos de nos sentir latinos naquela noite, agregando gerações, reconhecendo-nos na igualdade e na diferença. Sentados ou em pé, no palco ou na plateia, dividimos espaço e tempo, numa conjugação que só se realiza quando há tolerância e fraternidade.

Todo mundo junto.

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